quarta-feira, 15 de julho de 2009

CALL 911

Palmira Chagas

Domingo. Hora do Almoço. Deolinda e Marina que grávida, já perto de ter o bebê, estão num restaurante americano. Desde que Deolinda fora morar com o “marido”, só se falavam por telefone, e mesmo assim raramente. Deolinda não parecia a mesma alegre e falante do passado. Estava mais magra, olhos fundos, cabelos loiros com uns dois dedos de raiz negra, pois já não tinha tanto tempo para se cuidar. Deolinda se deixava cair na cadeira, olhou nos olhos da amiga e começou a falar.
- Marina, tô na vala! Nem sei como foi que me meti nesta! Mas deixa eu pedir duas cocas primeiro, pois tô morrendo de sede. E você? Como vai?
- Deixa eu te falar , a vida num tá lá essas coisas, mas meu GreenCard de 2 anos já chegou, tenho minha drive, vou levando...
- Can I help you? Era a garçonete que chegara.
- Fala você Deolinda meu inglês num é essas coisas, você fala bem.
A garçonete, como uma estátua, entregara o cardápio e esperava a resposta. Deolinda falou:
- Can I have two “cocks” please?
A garçonete-estátua, girou os olhos.
- Two cocks please! Insistiu já irritada Deolinda
- We do not sell cocks, I am sorry. Responde a garçonete com um sorriso forçado.
- You do not understand: I want two cocks over this table. Deolinda começou a levantar a voz. Falar alto mesmo.
- Please! Don’t do that! If you do, I call 911! E se retirou deixando em cima da mesa o cardápio.
- O que que foi isso Deolinda! Não aguento ser ameaçada por esses americanos! Tudo para eles é esse 911!
Deolinda se recuperava, não sabia se sentia raiva ou vergonha. Disfarçou a emoção pegou o cardápio e começou a escolher.
-Não se aborreça não amiga! E sses gringos vão para o Brasil, falam tudo errado e a gente leva numa boa. Aqui eles não se esforçam nem um pouquinho prá nos entender! Diz Marina tentando consolá-la, será que eles podem fazer duas torradinhas para nós?
-Torradas? Na hora do almoço?
- Tô cum desejo amiga... ce sabe como é gravidez , né? - Diz Marina cujos olhos verdes brilhavam dando a impressão que o desejo era muito grande. - Tem que ser duas, uma prá mim e outra para o meu filhão que já vai nascer!
- Ok!
- She want two pieces of toast. A garçonete olhou para grávida, entendeu o que Marina falara e voltou trazendo uma fatia somente num prato.
-She want two pieces. A garçonete não respondeu.
-She want to pieces.
- Do you want to piss? Go to the toilet – responde a garçonete - is there, e apontou para o local.
- You do not understand, she want two piece in plate. Deolinda apontou o prato de Marina com uma fatia somente de torrada.
O rosto da garçonete se transformou. Primeiro as duas malucas queriam dois machos sobre a mesa, chegaram a gritar por causa disso. E agora querem urinar num prato? Seriam loucas? De qualquer maneira ninguém iria fazer isso em seu setor no restaurante.
-Please! Do not do that! Disse devagar para ter certeza que entenderiam. Do not piss in the plate. E apontou o prato. If you piss in this plate I will call 911.
Deolinda gelou, sacudiu a cabeça. Chamar 911 porque queriam comer duas torradas! Marina entendeu o 911 e ficou mais confusa ainda. De novo? Seriam racistas? Vai ver que não gostavam de imigrantes.
A garçonete saiu para se recuperar, e Deolinda resolveu que iria apontar o que queria no cardápio. Achava humilhante não poder falar, as amigas confiavam sempre no seu inglês, no que estaria pensando Marina? Era melhor não falar por enquanto. A comida veio, os pratos foram colocados os talheres embrulhadinhos sobre o prato. As duas preparavam-se para comer, Deolinda abriu o embrulhinho com os talheres. Não tinha garfo. Duas colheres e faca. Olhou os de Marina, os garfos estavam lá. Detestava comer de colher. Chamou a garçonete.
- I want a fork.
- Everyone want a f*ck. Disse a garçonete sem demostrar nenhum espanto.
-You do not unsderstand. I want a fork in my table.
A garçonete olhou as duas. Seriam lésbicas aquelas infelizes?
-Do not f*ck on this table, because if you do, I will call 911.
Marina ficou nervosa. Ela tinha Greencard, Não era ilegal! Não tava pra ouvir desaforos! Mesmo assim resolveu apaziguar a garçonete:
- Peace for you! Peace for you! Disse sacudindo as mãos!
- Piss on you too! If This happen again, I will call 911 ! Responde a garçonete se afastando.
Marina põe a mão na barriga. Ainda tinha muito medo de imigração, polícia e tudo mais, esse número a intimidava. Uma dor fina, uma pontada estranha, um líquido escorre embaixo de sua cadeira.
- Deolinda, chegou a hora! O bebê vai nascer! Chame os médicos!
-Call 911! Call 911 ! Deolinda está tão aflita que já está gritando. A garçonete volta, vê o líquido, ouve os gritos, entende que ela não fora ao banheiro de propósito. Pensa que é provocação.
-I will call 911!