quinta-feira, 3 de setembro de 2009

A FEIJOADA VIOLENTA

A FEIJOADA VIOLENTA
Palmira chagas


Deolinda e Marina estavam presas. Nem mesmo se lembravam direito do que acontecera no dia anterior. Estariam os maridos resolvendo aquela confusão? Elas não tinham resposta.

Tudo começara na noite de sexta, quando Deolinda recebera um telefonema da amiga Marina a convidando para ir almoçar com ela no sábado. Era aniversário do seu marido americano, ela queria impressioná-lo fazendo uma feijoada com tudo que tinha direito, muita cerveja, cachaça e guaraná para as crianças. Queria que a amiga a ajudasse como bebê, os petiscos, a couve a farofa e a arrumação. A Feijoada fazia questão de fazer sozinha. O seu marido já ligara para o “marido” de Deolinda e todos, inclusive as crianças, estavam convidados para a festa.

Para os filhos do “marido” de Deolinda fora uma notícia e tanto, afinal, qual parente teria coragem de chamar 5 crianças criadas sem mãe, para almoçar em casa? Gostavam de Deolinda ela até estava indo nas reuniões de escola quando eles pediam, eram carentes e não tinham nada a ver com a confusão que arrumara com o pai deles, o menorzinho então, conseguia o que queria quando a chamava de “mami”. Deolinda não sabia se gostava ou detestava daquele vínculo. Ainda enrolada com o casamento e legalização, tentava não pensar no assunto. Os meninos juntaram todas as bolas que encontraram em casa, todos os bastões de beisebol e outros brinquedos. Havia espaço no quintal de Marina, segundo dissera Deolinda, assim eles iriam aproveitar ao máximo a estadia por lá.

Chegaram às 10 da manhã. Enquanto Marina e Deolinda faziam a comida e um pequeno bolo os “maridos” conversavam e bebericavam umas cervejas e cachaça com tira-gosto. O sol estava quente. Armaram uma piscina de plástico e aí foi que completou a festa para a criançada. Marina olhava o marido pela janela e dizia o quanto o amava, comentava que estava desempregado há tempo, mas era a crise, logo tudo se arranjaria e não precisaria mais limpar 5 casas por dia. Deolinda olhava o dela e pensava que a amiga não percebia que vontade de não trabalhar era de família, pelo menos o dela era consciente disso! Quando seria a hora de se livrar daquela situação?

A hora do almoço chegou. Comeram muito a tal feijoada completa que estava excelente! Os dois comeram demais e elogiavam as duas. O “ marido” de Deolinda disse que estava gostando de estar casado com ela. Que ela era uma excelente dona de casa, que recomendava a todos os amigos para casarem-se com brasileiras. A casa estava sempre limpa, os “pets” cuidados, as crianças limpas e felizes. O outro perguntou se haviam se entendido nos “finalmentes”. Ele disse que ainda não mas esperava que Deolinda cedesse qualquer dia desses.

Deolinda ouviu tudo calada. Só pensava nos 500 que tinha que dar ao “maridão” a cada sexta feira e que a limpeza fora exigência dele por não ter como dar mil a cada semana!

Comeram muito. Beberam demais. A essa altura o marido de Deolinda tinha capotado e dormia. O outro olhava sem enxergar as crianças que agora jogavam beisebol. Foi então que um bastão voou pelos ares acertando de cheio a testa do marido de Marina. Uma confusão. Ele caiu da cadeira de barriga para cima , o sangue jorrava do supercílio. Começou a se contorcer, a boca começou a entortar, somente a parte branca dos olhos era vista.Os braços se agitavam e ele começou a instintivamente tirar a roupa e ficou de cueca!!

Marina tentou levantá-lo, não conseguiu. Ficou cheia de sangue pela roupa. Deolinda também tentou ajudar, correu na cozinha e pegou sal para passar na boca do sujeito e pó de café para estancar o sangue. As crianças se encolheram no fundo do quintal com medo do que acontecera, o Marido de Deolinda dormia profundamente. Marina correu e chamou por socorro, como não sabia o que dizer disse somente. “ My husband! They chute the in head. Helpi helpi... They chute! They Chute”

Em menos de 3 minutos a casa estava cercada com várias viaturas. Era luzinha azul piscando por todo lado. Ao chegarem encontraram Deolinda com sal na mão passando na boca do infeliz que ainda se contorcia não se sabe se pela convulsão, se pela cachaça, pela feijoada ou pela grande quantidade de sal que Deolinda o fizera comer!

Deolinda estava cheia de sangue que ainda escorria em abundância pelo rosto do infeliz. Perdeu a fala quando olhou e viu um ser celeste altíssimo, vestido num uniforme impecável.

-“They chute he” Marina falava sem parar e apontava para Deolinda e as crianças encolhidas num canto.

Deolinda sentiu-se nas nuvens. Estaria sonhando? Sob o sol quente aquele monumento tinha cabelos quase brancos e seus olhos confundiam-se com o azul celeste. Olhou o marido bêbado caído no chão, “ Quanta diferença!”- pensou enquanto comparava os dois rapidamente. Sorriu, apontou uma cadeira e pediu que sentasse. O policial não entendeu, ela ajeitava os cabelos, tentava limpar o sal e o sangue das roupas e sorria em êxtase. Só caiu das nuvens quando uma gelada algema prendeu seus pulsos.

- “It’s not me, she did the feijoada, I help she only.” Disse Deolinda ainda contemplando o policial. Este voltou os olhos para Marina e reparou que havia sangue nela, pois caíra na bobagem de abraçar o marido ferido. Algemou-a também.

O Policial de monumento passou a carrasco, e Deolinda entendeu quando ele perguntou pela arma, e quem havia atirado no homem. Ela sem perceber apontou as crianças, e todas foram colocadas a disposição do serviço social da cidade.

Enquanto tudo isso se passava, o sal sobre o marido de Marina o fizera parar de contorcer, ele vomitara, defecara, e agora dormia placidamente sobre toda a imundície.Todos foram presos. Deolinda e Marina para a cadeia comum, os outros dois para curar a ressaca, as crianças para o juízado de menores.

No domingo pela manhã quando os dois americanos acordaram, espantaram-se com as barras na janela e quando interrrogaram o que acontecera, foram capazes, felizmente de inocentar as esposas. Ainda estavam felizes por terem esposas tão dedicadas. Tiveram que esperar pela segunda feira para que os papeis da liberação pudessem ser feitos, e o juíz determinou que frequentassem reuniões de terapia familiar.

Deolinda e o Marido agora voltavam para casa. Com muito custo conseguiram pegar as crianças, e foi o menorzinho chorando e a chamando de “mami” que convenceu a assistência social que eram uma família, com problemas, mas uma família. Foi então que o Marido de Deolinda quebrou o silêncio para comentar que a feijoada estava excelente, que gostara da festa. Abriu um sorriso e piscando os olhos com cumplicidade perguntou se a brincadeira de bater no marido depois da festa era tradição brasileira, e se ele devia se preparar para alguma surpresa quando chegasse o aniversário dele.

Deolinda suspirou em silêncio. Não valia a pena responder.

O BILHETE

O BILHETE

Palmira Chagas

Deolinda esta limpando sua última casa quando o telefone toca. Era Marina, e ela estava aos prantos.
-Deolinda minha amiga, me ajude. Marina soluça do outro lado.
- O que aconteceu amiga? Espera um pouquinho, vou parar de vequiar. Diz Deolinda desligando o aspirador de pó.
-Deolinda, Deixa eu te falar, eu to limpando uma casa de primeira vez, na casa tem um papagaio pequeno todo branquinho que tem um penacho na cabeça. Inicia Marina.
- Um periquito, você quer dizer... corrige Deolinda.
-Não, é um não tão grande como um papagaio nem pequenino como um periquito. Mas deixa eu te falar, a gaiola do bicho estava muito suja e eu resolvi limpar para causar boa impressão, e agora to angustiada, o bicho saiu da gaiola, já to quase uma hora tentando pegá-lo de novo e não consigo! Que que eu faço amiga?
- Como vou saber, Marina? - responde Deolinda.
- Linda você num disse que tem uma ararinha em casa que fica na gaiola e eles soltam de vez em quando? Você num disse que ela voa e sua a casa inteira? Como é que a colocam de volta na gaiola ?
- Marina a ararinha é deles e ela não tem medo de ser pega. Responde Deolinda.
-Me dá uma idéia Deolinda.
Deolinda pensa, está louca para acabar de aspirar a casa e ir embora. Tem que dar alguma ideia pois se não a amiga não vai deixá-la em paz.
-Já tentou jogar uma toalha em cima dela, como se fosse uma rede? Tenta essa que vai dar certo. Deolinda diz isso e desliga o telefone.
Cinco minutos depois o telefone toca novamente. Novamente Marina. Está chorando mais ainda:
-Deolinda fiz o que falou. Peguei uma toalha grande e joguei em cima dela...
- O que aconteceu, pegou a ararinha? Responde Deolinda impaciente.
-Não, mas quebrei três vasos de cristal que estavam numa estante. Com vou fazer agora. Preciso pegar esse passarinho! Vou ter que pagar esses vasos... chora Marina.
-Bem amiga, quando eu morava na roça, em Papucaia... começou Deolinda.
- Ué? Você não disse que era da cidade do Rio? -se espanta Marina.
-Claro que eu sou é que passava as férias na roça com minha a vó que era de lá. Responde Deolinda que quase fora pega na mentira, pois não era natural da cidade dos cariocas.
- Bem minha avó costumava balançar uma vara grande de bambú para derrubar morcegos, pegue o espanador e balance devagar para ver se consegue deruubá-lo. Termina Deolinda e desliga em seguida.
Mais cinco minutos o telefone toca de novo. “ É hoje que não acabo meu serviço!” – Pensa Deolinda atendendo de novo.
- Desculpas, caiu a ligação Marina, mas pode falr, deu certo? Derrubou a ararinha? Pergunta Deolinda.
- Sim derrubei, quebrei um vidro da janela e acertei de cheio da cabeça dela e ela ta agonizando agora no chão. Que que eu faço Deolinda? Eu matei o bicho. Ela tá se debatendo . Ela ta saindo muito sangue. Ela , ela parou de mexer. Morreu!! Morreu Deolinda!!!
Deolinda ficou paralizada.
- O que eu faço?
-Tenta reanimá-la, vai ver que não morreu. Diz Deolinda.
- Tá mortinha Deolinda, meu Deus! Que vou fazer agora.
Foi aí que Deolinda teve uma ideia brilhante:
- Marina, se acalme, limpe os cacos de vidro, faça um bilhete tentando explicar o seguinte...
- Em português?
-Em inglês é claro Marina!
-Mas eu não sei escrever inglês... chorou Marina.
- Eu dito para você, pegue a caneta.
Bem depois de quase 30 minutos o bilhete ficou pronto, foi colocado sobre a mesa da cozinha junto com uma caixinha de sapato contendo a ave morta.

“ Ms Curtiss:
I take off your vase of the glass from stants for clean and I put over the table, when I saw your bird and I think he was very sick. Maybe heart attack. I run to save him and I left down the pots and they is breack, but I understand you love more your pet then vase of glass. I get him out the his house and he was very, very sick. I put him in front me and I pray God to save him. God send a angel and he get well. Very well and he fly over my head right to celling fan, the fan send hin to window and he hit the head and he is died. I think God was saving him, because I was praying but he remember he write before today is the day for his died, and God can change his mine.
Sorry.
Marina”