sexta-feira, 6 de novembro de 2009

A CRENTE QUE ERA HELPER
Palmira Chagas
-Deolinda, ‘ conteceu uma disgrama!...Esse custoso que tu deixô cumigo foi assuntá na garagem do cliente e agora ‘tô lascada! Foi assim que lá pelas duas, quando Deolinda já estava com sua helper fazendo a terceira casa que o telefone tocou, trazendo novas emoções para a Carioca Experta.
-O que foi que aconteceu Lurdinha. Pelo amor de Deus, eu tenho vivido emoções demais! Deixe disso e vá trabalhar. Responde Deolinda já cortando o assunto pois sabia que Lurdinha gostava demais de conversar.
Desde quando decidira ganhar mais dinheiro e pegara alguns apartamentos e casas pequenas para fazer começaram seus problemas. Contratara Lurdinha por falta de opção, ela havia chegado há umas duas semanas do Brasil, junto com ela estava outro rapaz do interior “do Goiás”, como eles diziam, e todo dia Lurdinha tinha uma história nova. Era uma figura curiosa, baixinha, gordinha, saia comprida, blusa comprida de mangas compridas, cabelo comprido e como todo “crente” que Deolinda conhecia, tinha uma língua comprida demais. Como falava! Se não estava falando estava cantando. E agora, o que acontecera?
-Deolinda, eu juro que num tô te alugando não. Foi esse estrupício, esse mocorango, foi coisar na garagem, assuntando que nem gente grande e ai deu no que deu! Responde aflita Lurdinha.
-Fala logo Lurdinha... não to com tempo prá ouvir suas longas história.
-Deixa eu te falá, esse mocó queria saber que tipo de carro que o cliente tem. Ele tem mania de ficar olhando carro bonito, dai foi assuntar na garagem e sabe o que aconteceu?
-Claro que não sei... fala logo. Responde impaciente Deolinda.
-Tem uma mulher morta lá. Tem uma mulher morta lá! Eu não sei o que fazer. Devo chamar o 911? Se eu chamar vou ter problemas, cê sabe... vim caminhando para cá. E pior, como ele gritou eu fui ver o que aconteceia, e coloquei minha mão no carro, agora minha digital tá no carro, vão me prender Deolinda! Que Jesus me ajude.... chorava sem parar e falava histericamente que Deolinda se assustou.
-Como você sabe que é mulher e tá morta? O corpo tá no local?
- Tá sim. Tá sim. Olha só, deixa eu te falar, eu a v, o porta mala do carro tá meio aberto, a mão da mulher tá meio pra fora, é mulher porque tem unhas grandes e estão pintadas de vermelho, a coitadinha deve de ter tentado sair e ele amassou a mão dela! Horrível! – e soluçava - Como pode ter gente tão ruim.... Devia tá “meia-viva”. Tem sangue respingado pra tudo quanto é lado! Acho que ele deve de voltar para limpar tudo. Deolinda eu vou vazar! Acha que eles me encontram pela digital? Ah neim! Vim prá América morrer na cadeira elétrica! E pior , o mocorango que você me arrumou, já vazou com tanto medo que ficou, disse que não escostou em nada e não queria saber de ficar comigo, ligou para um amigo e foi embora se encontrar com ele. E voltou a chorar desesperadamente.
Deolinda ficou transtornada, já ouvira muitos casos na televisão de maridos que assassinam a esposa, ou namorados que fazem isto, mas nunca pensou que aconteceria com ela. Mandou que Lurdinha entrasse para casa e ficasse lá, ela iria voando para ajudá-la e resolver tudo, deixou sua helper terminando a casa e foi. Ainda bem que Lurdinha não fora embora, provara que sua religiosidade servia pelo menos para ter responsabilidade, tinha a língua comprida, mas pelo menos tinha coragem.
O caminho para lá foi muito longo. Só pensava no problemão que arrumara, teria que dizer que ela estava limpando a casa, mas e as digitais da Lurdinha? Que fazer com elas?
Enquanto isso, na casa, Lurdinha desesperada ajoelhou no chão da cozinha pedindo proteção a Deus. De repente, ouve um barulho, alguém estava em casa, no andar superior e vinha descendo a escada, seria o assassino? Se levanta devagar ainda orando com os olhos abertos. Da escada vem descendo um homem vestido de preto, suas roupas pretas em frangalhos, o olho esverdeados com grandes raizes vermelhas estava totalmente esbugalhados. Tinha dentes como de vampiro e de sua boca escorria sangue. Tinha na mão uma foice e caminhou com um sorriso macrabro em sua direção.
-Tá amarrado! Sangue de Jesus tem poder! Soltou um último grito histérico e desmaiou.
O homem parou assustado, tentou ajudá-la, a esposa, com o barulho , veio ver o que acontecia, ela estava vestida com uma fantasia de diabo, roupas vermelhas tridente, chifres, rabo, bigode, cafanhaque, tudo de primeira linha comprada na Party City. Com muita luta Lurdinha voltou a si, só para deparar agora com dois seres horripilantes tentando ajudá-la, e pior é que o próprio Diabo sorria com simpatia para ela, parecendo alegre por vê-la.
- Jesus me salve! E desmaiou outra vez só e desta vez porque pensou que havia sido enviada erradamente para o inferno. Tanto que orara, subira montes, jejuara, devia ter algum erro! Não iria voltar a abrir seus olhos até vissem que cometeram um engano a enviando para assar com os pecadores. “Quero ver os anjos! Eu vou é para a glória!” Fora seu último pensamento antes de desmaiar.
O casal chamou o 911 quando viram que não acordava. Logo chegou a polícia, ambulância e os bombeiros. Colocaram Lurdinha na maca, e ela permaneceu de olhos fechados . Não ouvira musica celeste, nem tão pouco as arpas angelicais. Então ouviu a voz de Deolinda.
- Foram eles! Foram eles! Gritava histericamente! São demônios do inferno! Foram eles! Levantou-se da maca e se pois a gritar.
Os americanos não entenderam nada. A porta da garagem estava aberta. Ela apontava a decoração de hallowen no porta mala do carro. Deolinda entendeu tudo e desatou a rir. Não sabia se ria de raiva ou da situação. Lurdinha nunca vira uma decoração de Hallowen, e se assustou diante da realidade das decorações. Tentou explicar para a ambulância e para os policiais. Eles entenderam mais disse que enviariam “o Bill” para o dono da casa que fizera a chamada, e este avisou Deolinda que iria descontar nas limpezas. E Claro Deolinda iria faze-la pagar, teria que ficar com ela longo tempo!
Depois de tudo explicado Lurdinha comentou.
-Num entendi. Falaou enquanto olhava pela janela, “ce vê” Deolinda nosso país é católico e quem dá doce e o São Cosme e São Damião, pelo menos são santos , e aqui que todo mundo é crente deixam os “pros demônio” a tarefa de dar os doces !!! Vai entender esses crentes!!!

SWING FLU

Deolinda estava voltando do trabalho cansada, estava ficando preocupada com a atitude do “marido”. O que será que estava passando na cabeça dele? O sujeito andava meio mudado: Não pescava mais toda sexta-feira, estava ficando em casa, até tomar banho de dois em dois dias estava tomando, os longos cabelos loiros, não estava mais emplastado de sujeira e pasmem! Até a quantidade de meias e cuecas aumentara na lavagem de roupa semanal que Deolinda realizava contrariada, significando que estava trocando-as com mais assiduidade. Não era de se espantar? Quando é que esses benditos fiscais da imigração iriam aparecer?

Chegou em casa encontrou o “marido” agitadíssimo. Falava gesticulava e mastigava um palito de dente, hábito que ainda persistia, tentava fazê-la entender que a imigração havia vindo e que não entrara em casa porque ela, Deolinda, não estava.Voltariam no dia seguinte.

Deolinda não sabia se ria ou se chorava, a escravidão estava acabando! Saiu correndo para o andar de cima para organizar as coisas: Tirara fotos dela com o marido e as crianças, as roupas estavam no mesmo closet, os sapatos estavam juntos, as crianças não sabiam da situação em que viviam.

O “marido” entrou no quarto. Apontou o segundo colchão encostado na parede. Ele afirmou bem devagar mascando seu palito, que o colhão teria que sair do quarto. Teriam que dormir juntos. Deolinda estremeceu. Desde que casara, impusera que o “marido” dormisse num colchão no chão do quarto. Sabia que com cinco crianças na casa, não poderia dormir no sofá, como ela desejava. Agora a situação era outra. E foi forçada a aceitar a situação, mas logo no inicio da noite mudou-se para o closet, pois tinha certeza que uma mão adormecida, que não era a dela, andava passeando do lado errado da cama.

Foi uma semana de apreensão , a noite e durante o dia: Eles, os fiscais da imigração, não vieram no dia seguinte, nem no outro, nem uma semana depois. Deolinda começou a desconfiar da história do “marido”. Será que fora um golpe ? O fato é que depois de quinze dias levantando no meio da noite para se trancar no closet, Deolinda percebeu que alguma coisa estava acontecendo. Creditou isso ao cansaço, sim, era por causa do cansaço que estava quase ignorando a mão que insistia em passear pela cama. Também pudera: tantas noites no closet, tanta ansiedade, estava até com vontade de esquecer a maldita mão e dormir na cama! Dormir em closet! Isso não era vida!

Na seguinte segunda feira, estava chovendo, Deolinda foi trabalhar como de costume, mas teve que voltar pois a HWY que usava para chegar ao trabalho tinha sido alagada, e não havia como trabalhar.Encontrou o marido em casa , disse que fora buscar as crianças cedo, elas haviam dormido na casa da avó onde passaram o domingo, mas o sitio em que morava, estava com a saída totalmente alagada, disse também que as escolas haviam cancelado as aulas.

Um alarme soou na cabeça de Deolinda.Parecia conspiração: Então ficaria sozinha com o marido em casa durante o dia e a noite? Parece que até a natureza conspirava contra ela! Passou o dia fugindo do “marido” que queria ajudá-la lavar roupas, limpar a casa, fazer comida... a noite pegou suas coisas e mudou-se para o sofá. As crianças não estavam em casa com certeza a história da imigração fora golpe dele mesmo! Tão cansada estava que dormiu profundamente, só para abrir os olhos na manhã seguinte e dar de cara com o grandalhão sentadinho numa cadeira olhando apaixonadamente para ela. Parecia triste. E começou a dizer assim que a viu acordar.
- Deolinda, I love voce... You é the best novia… Estava atrapalhado. O que é isto? O marido andara estudando portugues? Ele ainda falava coisas, mas Deolinda estava paralizada. Entendeu que ele ficara apaixonado por tudo: sua comida, seu jeito de tomar conta das crianças, e por ela! Entendeu que ele queria casar de verdade! E de quebra ela não precisava mais pagar nada do que estava faltando!O primeiro pensamento que teve foi fugir, mas o coração estava disparado, maldito coração de mulher.... porque nos deixamos emprenhar pelo ouvido? Pensava Deolinda enquando enrolada num lençol tentava sair da sala. Mas o marido insistia. E o coração de Deolinda resistindo bravamente, tentava pensar na humilhaão que passara todos aqueles meses, que fora obrigada arrumar tudo, lavar, cozinhar ,e até cuidar dos cachorros! Sujeitinho terrível, só porque sou mulher, estou carente, esse infeliz quer se aproveitar de mim! Quer me escrevaisar para sempre..

- I do not want you! Leave me alone! Leave me alone!

Ele se colocou entre a porta da cozinha e a mesa, não ele não iria deixá-la escapar. A segurou e Deolinda se pois a gritar que a deixasse porque queria ir embora! Quer não queria ficar com ele. Nesta luta ficaram quase meia hora, até que a campainha tocou. O marido se assustou e Deolinda correu para atender. Esqueceu que estava descabelada, com lençol enrolado e com roupas de dormir, faria qualquer coisa para se livrar daquela situação.

Um homem e uma mulher bem vestidos estavam parados com uma pasta na mão e se apresentaram. . Eram da imigração, vieram entrevistá-la, mas como estavam na porta há quase meia hora, nçao necessitavam mais fazer a entrevista, haviam entendido tudo Ela não era casada de verdade com o “marido”, e espiando para dentro da sala, viram o sofá onde ela dormira, e como desconfiavam, até dormiam separados!

Se uma bomba caísse sobre Deolinda, faria um estrago menor, mas era lembrou-se que era carioca exxxperta e procurou se recompor: tossiu um pouco e falou com uma voz rouca.
- You do not understand. We are husband and wife, but I have “suing flu” I can not stay with him now.
O fiscal sorriu e disse que ela não poderia chamar a gripe H1N1 de Gripe suina, disse que poderia ser processada por isso. Deolinda muito séria mentiu outra vez:

- Sorry , I have “suing” flu from Brazil. It very dangerous! And I can not stay with him, he need wait until i stop “suing. When I have this, I want suing suing suing, and maybe tomorrow or after tomorrow I will be yellow and my face became red, and I will start vomit…

Deolinda nem acabou de falar. Os fiscais pediram desculpas por terem entendido o caso mal, se afastaram tampando o nariz e a boca, e de longe disseram que iriam voltar depois de uns meses.

Deolinda se jogou no sofá! Fora por pouco. Mas e agora? Quanto tempo demoraria para voltarem?