Deolinda estava voltando do trabalho cansada, estava ficando preocupada com a atitude do “marido”. O que será que estava passando na cabeça dele? O sujeito andava meio mudado: Não pescava mais toda sexta-feira, estava ficando em casa, até tomar banho de dois em dois dias estava tomando, os longos cabelos loiros, não estava mais emplastado de sujeira e pasmem! Até a quantidade de meias e cuecas aumentara na lavagem de roupa semanal que Deolinda realizava contrariada, significando que estava trocando-as com mais assiduidade. Não era de se espantar? Quando é que esses benditos fiscais da imigração iriam aparecer?
Chegou em casa encontrou o “marido” agitadíssimo. Falava gesticulava e mastigava um palito de dente, hábito que ainda persistia, tentava fazê-la entender que a imigração havia vindo e que não entrara em casa porque ela, Deolinda, não estava.Voltariam no dia seguinte.
Deolinda não sabia se ria ou se chorava, a escravidão estava acabando! Saiu correndo para o andar de cima para organizar as coisas: Tirara fotos dela com o marido e as crianças, as roupas estavam no mesmo closet, os sapatos estavam juntos, as crianças não sabiam da situação em que viviam.
O “marido” entrou no quarto. Apontou o segundo colchão encostado na parede. Ele afirmou bem devagar mascando seu palito, que o colhão teria que sair do quarto. Teriam que dormir juntos. Deolinda estremeceu. Desde que casara, impusera que o “marido” dormisse num colchão no chão do quarto. Sabia que com cinco crianças na casa, não poderia dormir no sofá, como ela desejava. Agora a situação era outra. E foi forçada a aceitar a situação, mas logo no inicio da noite mudou-se para o closet, pois tinha certeza que uma mão adormecida, que não era a dela, andava passeando do lado errado da cama.
Foi uma semana de apreensão , a noite e durante o dia: Eles, os fiscais da imigração, não vieram no dia seguinte, nem no outro, nem uma semana depois. Deolinda começou a desconfiar da história do “marido”. Será que fora um golpe ? O fato é que depois de quinze dias levantando no meio da noite para se trancar no closet, Deolinda percebeu que alguma coisa estava acontecendo. Creditou isso ao cansaço, sim, era por causa do cansaço que estava quase ignorando a mão que insistia em passear pela cama. Também pudera: tantas noites no closet, tanta ansiedade, estava até com vontade de esquecer a maldita mão e dormir na cama! Dormir em closet! Isso não era vida!
Na seguinte segunda feira, estava chovendo, Deolinda foi trabalhar como de costume, mas teve que voltar pois a HWY que usava para chegar ao trabalho tinha sido alagada, e não havia como trabalhar.Encontrou o marido em casa , disse que fora buscar as crianças cedo, elas haviam dormido na casa da avó onde passaram o domingo, mas o sitio em que morava, estava com a saída totalmente alagada, disse também que as escolas haviam cancelado as aulas.
Um alarme soou na cabeça de Deolinda.Parecia conspiração: Então ficaria sozinha com o marido em casa durante o dia e a noite? Parece que até a natureza conspirava contra ela! Passou o dia fugindo do “marido” que queria ajudá-la lavar roupas, limpar a casa, fazer comida... a noite pegou suas coisas e mudou-se para o sofá. As crianças não estavam em casa com certeza a história da imigração fora golpe dele mesmo! Tão cansada estava que dormiu profundamente, só para abrir os olhos na manhã seguinte e dar de cara com o grandalhão sentadinho numa cadeira olhando apaixonadamente para ela. Parecia triste. E começou a dizer assim que a viu acordar.
- Deolinda, I love voce... You é the best novia… Estava atrapalhado. O que é isto? O marido andara estudando portugues? Ele ainda falava coisas, mas Deolinda estava paralizada. Entendeu que ele ficara apaixonado por tudo: sua comida, seu jeito de tomar conta das crianças, e por ela! Entendeu que ele queria casar de verdade! E de quebra ela não precisava mais pagar nada do que estava faltando!O primeiro pensamento que teve foi fugir, mas o coração estava disparado, maldito coração de mulher.... porque nos deixamos emprenhar pelo ouvido? Pensava Deolinda enquando enrolada num lençol tentava sair da sala. Mas o marido insistia. E o coração de Deolinda resistindo bravamente, tentava pensar na humilhaão que passara todos aqueles meses, que fora obrigada arrumar tudo, lavar, cozinhar ,e até cuidar dos cachorros! Sujeitinho terrível, só porque sou mulher, estou carente, esse infeliz quer se aproveitar de mim! Quer me escrevaisar para sempre..
- I do not want you! Leave me alone! Leave me alone!
Ele se colocou entre a porta da cozinha e a mesa, não ele não iria deixá-la escapar. A segurou e Deolinda se pois a gritar que a deixasse porque queria ir embora! Quer não queria ficar com ele. Nesta luta ficaram quase meia hora, até que a campainha tocou. O marido se assustou e Deolinda correu para atender. Esqueceu que estava descabelada, com lençol enrolado e com roupas de dormir, faria qualquer coisa para se livrar daquela situação.
Um homem e uma mulher bem vestidos estavam parados com uma pasta na mão e se apresentaram. . Eram da imigração, vieram entrevistá-la, mas como estavam na porta há quase meia hora, nçao necessitavam mais fazer a entrevista, haviam entendido tudo Ela não era casada de verdade com o “marido”, e espiando para dentro da sala, viram o sofá onde ela dormira, e como desconfiavam, até dormiam separados!
Se uma bomba caísse sobre Deolinda, faria um estrago menor, mas era lembrou-se que era carioca exxxperta e procurou se recompor: tossiu um pouco e falou com uma voz rouca.
- You do not understand. We are husband and wife, but I have “suing flu” I can not stay with him now.
O fiscal sorriu e disse que ela não poderia chamar a gripe H1N1 de Gripe suina, disse que poderia ser processada por isso. Deolinda muito séria mentiu outra vez:
- Sorry , I have “suing” flu from Brazil. It very dangerous! And I can not stay with him, he need wait until i stop “suing. When I have this, I want suing suing suing, and maybe tomorrow or after tomorrow I will be yellow and my face became red, and I will start vomit…
Deolinda nem acabou de falar. Os fiscais pediram desculpas por terem entendido o caso mal, se afastaram tampando o nariz e a boca, e de longe disseram que iriam voltar depois de uns meses.
Deolinda se jogou no sofá! Fora por pouco. Mas e agora? Quanto tempo demoraria para voltarem?
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