sexta-feira, 6 de novembro de 2009

A CRENTE QUE ERA HELPER
Palmira Chagas
-Deolinda, ‘ conteceu uma disgrama!...Esse custoso que tu deixô cumigo foi assuntá na garagem do cliente e agora ‘tô lascada! Foi assim que lá pelas duas, quando Deolinda já estava com sua helper fazendo a terceira casa que o telefone tocou, trazendo novas emoções para a Carioca Experta.
-O que foi que aconteceu Lurdinha. Pelo amor de Deus, eu tenho vivido emoções demais! Deixe disso e vá trabalhar. Responde Deolinda já cortando o assunto pois sabia que Lurdinha gostava demais de conversar.
Desde quando decidira ganhar mais dinheiro e pegara alguns apartamentos e casas pequenas para fazer começaram seus problemas. Contratara Lurdinha por falta de opção, ela havia chegado há umas duas semanas do Brasil, junto com ela estava outro rapaz do interior “do Goiás”, como eles diziam, e todo dia Lurdinha tinha uma história nova. Era uma figura curiosa, baixinha, gordinha, saia comprida, blusa comprida de mangas compridas, cabelo comprido e como todo “crente” que Deolinda conhecia, tinha uma língua comprida demais. Como falava! Se não estava falando estava cantando. E agora, o que acontecera?
-Deolinda, eu juro que num tô te alugando não. Foi esse estrupício, esse mocorango, foi coisar na garagem, assuntando que nem gente grande e ai deu no que deu! Responde aflita Lurdinha.
-Fala logo Lurdinha... não to com tempo prá ouvir suas longas história.
-Deixa eu te falá, esse mocó queria saber que tipo de carro que o cliente tem. Ele tem mania de ficar olhando carro bonito, dai foi assuntar na garagem e sabe o que aconteceu?
-Claro que não sei... fala logo. Responde impaciente Deolinda.
-Tem uma mulher morta lá. Tem uma mulher morta lá! Eu não sei o que fazer. Devo chamar o 911? Se eu chamar vou ter problemas, cê sabe... vim caminhando para cá. E pior, como ele gritou eu fui ver o que aconteceia, e coloquei minha mão no carro, agora minha digital tá no carro, vão me prender Deolinda! Que Jesus me ajude.... chorava sem parar e falava histericamente que Deolinda se assustou.
-Como você sabe que é mulher e tá morta? O corpo tá no local?
- Tá sim. Tá sim. Olha só, deixa eu te falar, eu a v, o porta mala do carro tá meio aberto, a mão da mulher tá meio pra fora, é mulher porque tem unhas grandes e estão pintadas de vermelho, a coitadinha deve de ter tentado sair e ele amassou a mão dela! Horrível! – e soluçava - Como pode ter gente tão ruim.... Devia tá “meia-viva”. Tem sangue respingado pra tudo quanto é lado! Acho que ele deve de voltar para limpar tudo. Deolinda eu vou vazar! Acha que eles me encontram pela digital? Ah neim! Vim prá América morrer na cadeira elétrica! E pior , o mocorango que você me arrumou, já vazou com tanto medo que ficou, disse que não escostou em nada e não queria saber de ficar comigo, ligou para um amigo e foi embora se encontrar com ele. E voltou a chorar desesperadamente.
Deolinda ficou transtornada, já ouvira muitos casos na televisão de maridos que assassinam a esposa, ou namorados que fazem isto, mas nunca pensou que aconteceria com ela. Mandou que Lurdinha entrasse para casa e ficasse lá, ela iria voando para ajudá-la e resolver tudo, deixou sua helper terminando a casa e foi. Ainda bem que Lurdinha não fora embora, provara que sua religiosidade servia pelo menos para ter responsabilidade, tinha a língua comprida, mas pelo menos tinha coragem.
O caminho para lá foi muito longo. Só pensava no problemão que arrumara, teria que dizer que ela estava limpando a casa, mas e as digitais da Lurdinha? Que fazer com elas?
Enquanto isso, na casa, Lurdinha desesperada ajoelhou no chão da cozinha pedindo proteção a Deus. De repente, ouve um barulho, alguém estava em casa, no andar superior e vinha descendo a escada, seria o assassino? Se levanta devagar ainda orando com os olhos abertos. Da escada vem descendo um homem vestido de preto, suas roupas pretas em frangalhos, o olho esverdeados com grandes raizes vermelhas estava totalmente esbugalhados. Tinha dentes como de vampiro e de sua boca escorria sangue. Tinha na mão uma foice e caminhou com um sorriso macrabro em sua direção.
-Tá amarrado! Sangue de Jesus tem poder! Soltou um último grito histérico e desmaiou.
O homem parou assustado, tentou ajudá-la, a esposa, com o barulho , veio ver o que acontecia, ela estava vestida com uma fantasia de diabo, roupas vermelhas tridente, chifres, rabo, bigode, cafanhaque, tudo de primeira linha comprada na Party City. Com muita luta Lurdinha voltou a si, só para deparar agora com dois seres horripilantes tentando ajudá-la, e pior é que o próprio Diabo sorria com simpatia para ela, parecendo alegre por vê-la.
- Jesus me salve! E desmaiou outra vez só e desta vez porque pensou que havia sido enviada erradamente para o inferno. Tanto que orara, subira montes, jejuara, devia ter algum erro! Não iria voltar a abrir seus olhos até vissem que cometeram um engano a enviando para assar com os pecadores. “Quero ver os anjos! Eu vou é para a glória!” Fora seu último pensamento antes de desmaiar.
O casal chamou o 911 quando viram que não acordava. Logo chegou a polícia, ambulância e os bombeiros. Colocaram Lurdinha na maca, e ela permaneceu de olhos fechados . Não ouvira musica celeste, nem tão pouco as arpas angelicais. Então ouviu a voz de Deolinda.
- Foram eles! Foram eles! Gritava histericamente! São demônios do inferno! Foram eles! Levantou-se da maca e se pois a gritar.
Os americanos não entenderam nada. A porta da garagem estava aberta. Ela apontava a decoração de hallowen no porta mala do carro. Deolinda entendeu tudo e desatou a rir. Não sabia se ria de raiva ou da situação. Lurdinha nunca vira uma decoração de Hallowen, e se assustou diante da realidade das decorações. Tentou explicar para a ambulância e para os policiais. Eles entenderam mais disse que enviariam “o Bill” para o dono da casa que fizera a chamada, e este avisou Deolinda que iria descontar nas limpezas. E Claro Deolinda iria faze-la pagar, teria que ficar com ela longo tempo!
Depois de tudo explicado Lurdinha comentou.
-Num entendi. Falaou enquanto olhava pela janela, “ce vê” Deolinda nosso país é católico e quem dá doce e o São Cosme e São Damião, pelo menos são santos , e aqui que todo mundo é crente deixam os “pros demônio” a tarefa de dar os doces !!! Vai entender esses crentes!!!

SWING FLU

Deolinda estava voltando do trabalho cansada, estava ficando preocupada com a atitude do “marido”. O que será que estava passando na cabeça dele? O sujeito andava meio mudado: Não pescava mais toda sexta-feira, estava ficando em casa, até tomar banho de dois em dois dias estava tomando, os longos cabelos loiros, não estava mais emplastado de sujeira e pasmem! Até a quantidade de meias e cuecas aumentara na lavagem de roupa semanal que Deolinda realizava contrariada, significando que estava trocando-as com mais assiduidade. Não era de se espantar? Quando é que esses benditos fiscais da imigração iriam aparecer?

Chegou em casa encontrou o “marido” agitadíssimo. Falava gesticulava e mastigava um palito de dente, hábito que ainda persistia, tentava fazê-la entender que a imigração havia vindo e que não entrara em casa porque ela, Deolinda, não estava.Voltariam no dia seguinte.

Deolinda não sabia se ria ou se chorava, a escravidão estava acabando! Saiu correndo para o andar de cima para organizar as coisas: Tirara fotos dela com o marido e as crianças, as roupas estavam no mesmo closet, os sapatos estavam juntos, as crianças não sabiam da situação em que viviam.

O “marido” entrou no quarto. Apontou o segundo colchão encostado na parede. Ele afirmou bem devagar mascando seu palito, que o colhão teria que sair do quarto. Teriam que dormir juntos. Deolinda estremeceu. Desde que casara, impusera que o “marido” dormisse num colchão no chão do quarto. Sabia que com cinco crianças na casa, não poderia dormir no sofá, como ela desejava. Agora a situação era outra. E foi forçada a aceitar a situação, mas logo no inicio da noite mudou-se para o closet, pois tinha certeza que uma mão adormecida, que não era a dela, andava passeando do lado errado da cama.

Foi uma semana de apreensão , a noite e durante o dia: Eles, os fiscais da imigração, não vieram no dia seguinte, nem no outro, nem uma semana depois. Deolinda começou a desconfiar da história do “marido”. Será que fora um golpe ? O fato é que depois de quinze dias levantando no meio da noite para se trancar no closet, Deolinda percebeu que alguma coisa estava acontecendo. Creditou isso ao cansaço, sim, era por causa do cansaço que estava quase ignorando a mão que insistia em passear pela cama. Também pudera: tantas noites no closet, tanta ansiedade, estava até com vontade de esquecer a maldita mão e dormir na cama! Dormir em closet! Isso não era vida!

Na seguinte segunda feira, estava chovendo, Deolinda foi trabalhar como de costume, mas teve que voltar pois a HWY que usava para chegar ao trabalho tinha sido alagada, e não havia como trabalhar.Encontrou o marido em casa , disse que fora buscar as crianças cedo, elas haviam dormido na casa da avó onde passaram o domingo, mas o sitio em que morava, estava com a saída totalmente alagada, disse também que as escolas haviam cancelado as aulas.

Um alarme soou na cabeça de Deolinda.Parecia conspiração: Então ficaria sozinha com o marido em casa durante o dia e a noite? Parece que até a natureza conspirava contra ela! Passou o dia fugindo do “marido” que queria ajudá-la lavar roupas, limpar a casa, fazer comida... a noite pegou suas coisas e mudou-se para o sofá. As crianças não estavam em casa com certeza a história da imigração fora golpe dele mesmo! Tão cansada estava que dormiu profundamente, só para abrir os olhos na manhã seguinte e dar de cara com o grandalhão sentadinho numa cadeira olhando apaixonadamente para ela. Parecia triste. E começou a dizer assim que a viu acordar.
- Deolinda, I love voce... You é the best novia… Estava atrapalhado. O que é isto? O marido andara estudando portugues? Ele ainda falava coisas, mas Deolinda estava paralizada. Entendeu que ele ficara apaixonado por tudo: sua comida, seu jeito de tomar conta das crianças, e por ela! Entendeu que ele queria casar de verdade! E de quebra ela não precisava mais pagar nada do que estava faltando!O primeiro pensamento que teve foi fugir, mas o coração estava disparado, maldito coração de mulher.... porque nos deixamos emprenhar pelo ouvido? Pensava Deolinda enquando enrolada num lençol tentava sair da sala. Mas o marido insistia. E o coração de Deolinda resistindo bravamente, tentava pensar na humilhaão que passara todos aqueles meses, que fora obrigada arrumar tudo, lavar, cozinhar ,e até cuidar dos cachorros! Sujeitinho terrível, só porque sou mulher, estou carente, esse infeliz quer se aproveitar de mim! Quer me escrevaisar para sempre..

- I do not want you! Leave me alone! Leave me alone!

Ele se colocou entre a porta da cozinha e a mesa, não ele não iria deixá-la escapar. A segurou e Deolinda se pois a gritar que a deixasse porque queria ir embora! Quer não queria ficar com ele. Nesta luta ficaram quase meia hora, até que a campainha tocou. O marido se assustou e Deolinda correu para atender. Esqueceu que estava descabelada, com lençol enrolado e com roupas de dormir, faria qualquer coisa para se livrar daquela situação.

Um homem e uma mulher bem vestidos estavam parados com uma pasta na mão e se apresentaram. . Eram da imigração, vieram entrevistá-la, mas como estavam na porta há quase meia hora, nçao necessitavam mais fazer a entrevista, haviam entendido tudo Ela não era casada de verdade com o “marido”, e espiando para dentro da sala, viram o sofá onde ela dormira, e como desconfiavam, até dormiam separados!

Se uma bomba caísse sobre Deolinda, faria um estrago menor, mas era lembrou-se que era carioca exxxperta e procurou se recompor: tossiu um pouco e falou com uma voz rouca.
- You do not understand. We are husband and wife, but I have “suing flu” I can not stay with him now.
O fiscal sorriu e disse que ela não poderia chamar a gripe H1N1 de Gripe suina, disse que poderia ser processada por isso. Deolinda muito séria mentiu outra vez:

- Sorry , I have “suing” flu from Brazil. It very dangerous! And I can not stay with him, he need wait until i stop “suing. When I have this, I want suing suing suing, and maybe tomorrow or after tomorrow I will be yellow and my face became red, and I will start vomit…

Deolinda nem acabou de falar. Os fiscais pediram desculpas por terem entendido o caso mal, se afastaram tampando o nariz e a boca, e de longe disseram que iriam voltar depois de uns meses.

Deolinda se jogou no sofá! Fora por pouco. Mas e agora? Quanto tempo demoraria para voltarem?

quinta-feira, 3 de setembro de 2009

A FEIJOADA VIOLENTA

A FEIJOADA VIOLENTA
Palmira chagas


Deolinda e Marina estavam presas. Nem mesmo se lembravam direito do que acontecera no dia anterior. Estariam os maridos resolvendo aquela confusão? Elas não tinham resposta.

Tudo começara na noite de sexta, quando Deolinda recebera um telefonema da amiga Marina a convidando para ir almoçar com ela no sábado. Era aniversário do seu marido americano, ela queria impressioná-lo fazendo uma feijoada com tudo que tinha direito, muita cerveja, cachaça e guaraná para as crianças. Queria que a amiga a ajudasse como bebê, os petiscos, a couve a farofa e a arrumação. A Feijoada fazia questão de fazer sozinha. O seu marido já ligara para o “marido” de Deolinda e todos, inclusive as crianças, estavam convidados para a festa.

Para os filhos do “marido” de Deolinda fora uma notícia e tanto, afinal, qual parente teria coragem de chamar 5 crianças criadas sem mãe, para almoçar em casa? Gostavam de Deolinda ela até estava indo nas reuniões de escola quando eles pediam, eram carentes e não tinham nada a ver com a confusão que arrumara com o pai deles, o menorzinho então, conseguia o que queria quando a chamava de “mami”. Deolinda não sabia se gostava ou detestava daquele vínculo. Ainda enrolada com o casamento e legalização, tentava não pensar no assunto. Os meninos juntaram todas as bolas que encontraram em casa, todos os bastões de beisebol e outros brinquedos. Havia espaço no quintal de Marina, segundo dissera Deolinda, assim eles iriam aproveitar ao máximo a estadia por lá.

Chegaram às 10 da manhã. Enquanto Marina e Deolinda faziam a comida e um pequeno bolo os “maridos” conversavam e bebericavam umas cervejas e cachaça com tira-gosto. O sol estava quente. Armaram uma piscina de plástico e aí foi que completou a festa para a criançada. Marina olhava o marido pela janela e dizia o quanto o amava, comentava que estava desempregado há tempo, mas era a crise, logo tudo se arranjaria e não precisaria mais limpar 5 casas por dia. Deolinda olhava o dela e pensava que a amiga não percebia que vontade de não trabalhar era de família, pelo menos o dela era consciente disso! Quando seria a hora de se livrar daquela situação?

A hora do almoço chegou. Comeram muito a tal feijoada completa que estava excelente! Os dois comeram demais e elogiavam as duas. O “ marido” de Deolinda disse que estava gostando de estar casado com ela. Que ela era uma excelente dona de casa, que recomendava a todos os amigos para casarem-se com brasileiras. A casa estava sempre limpa, os “pets” cuidados, as crianças limpas e felizes. O outro perguntou se haviam se entendido nos “finalmentes”. Ele disse que ainda não mas esperava que Deolinda cedesse qualquer dia desses.

Deolinda ouviu tudo calada. Só pensava nos 500 que tinha que dar ao “maridão” a cada sexta feira e que a limpeza fora exigência dele por não ter como dar mil a cada semana!

Comeram muito. Beberam demais. A essa altura o marido de Deolinda tinha capotado e dormia. O outro olhava sem enxergar as crianças que agora jogavam beisebol. Foi então que um bastão voou pelos ares acertando de cheio a testa do marido de Marina. Uma confusão. Ele caiu da cadeira de barriga para cima , o sangue jorrava do supercílio. Começou a se contorcer, a boca começou a entortar, somente a parte branca dos olhos era vista.Os braços se agitavam e ele começou a instintivamente tirar a roupa e ficou de cueca!!

Marina tentou levantá-lo, não conseguiu. Ficou cheia de sangue pela roupa. Deolinda também tentou ajudar, correu na cozinha e pegou sal para passar na boca do sujeito e pó de café para estancar o sangue. As crianças se encolheram no fundo do quintal com medo do que acontecera, o Marido de Deolinda dormia profundamente. Marina correu e chamou por socorro, como não sabia o que dizer disse somente. “ My husband! They chute the in head. Helpi helpi... They chute! They Chute”

Em menos de 3 minutos a casa estava cercada com várias viaturas. Era luzinha azul piscando por todo lado. Ao chegarem encontraram Deolinda com sal na mão passando na boca do infeliz que ainda se contorcia não se sabe se pela convulsão, se pela cachaça, pela feijoada ou pela grande quantidade de sal que Deolinda o fizera comer!

Deolinda estava cheia de sangue que ainda escorria em abundância pelo rosto do infeliz. Perdeu a fala quando olhou e viu um ser celeste altíssimo, vestido num uniforme impecável.

-“They chute he” Marina falava sem parar e apontava para Deolinda e as crianças encolhidas num canto.

Deolinda sentiu-se nas nuvens. Estaria sonhando? Sob o sol quente aquele monumento tinha cabelos quase brancos e seus olhos confundiam-se com o azul celeste. Olhou o marido bêbado caído no chão, “ Quanta diferença!”- pensou enquanto comparava os dois rapidamente. Sorriu, apontou uma cadeira e pediu que sentasse. O policial não entendeu, ela ajeitava os cabelos, tentava limpar o sal e o sangue das roupas e sorria em êxtase. Só caiu das nuvens quando uma gelada algema prendeu seus pulsos.

- “It’s not me, she did the feijoada, I help she only.” Disse Deolinda ainda contemplando o policial. Este voltou os olhos para Marina e reparou que havia sangue nela, pois caíra na bobagem de abraçar o marido ferido. Algemou-a também.

O Policial de monumento passou a carrasco, e Deolinda entendeu quando ele perguntou pela arma, e quem havia atirado no homem. Ela sem perceber apontou as crianças, e todas foram colocadas a disposição do serviço social da cidade.

Enquanto tudo isso se passava, o sal sobre o marido de Marina o fizera parar de contorcer, ele vomitara, defecara, e agora dormia placidamente sobre toda a imundície.Todos foram presos. Deolinda e Marina para a cadeia comum, os outros dois para curar a ressaca, as crianças para o juízado de menores.

No domingo pela manhã quando os dois americanos acordaram, espantaram-se com as barras na janela e quando interrrogaram o que acontecera, foram capazes, felizmente de inocentar as esposas. Ainda estavam felizes por terem esposas tão dedicadas. Tiveram que esperar pela segunda feira para que os papeis da liberação pudessem ser feitos, e o juíz determinou que frequentassem reuniões de terapia familiar.

Deolinda e o Marido agora voltavam para casa. Com muito custo conseguiram pegar as crianças, e foi o menorzinho chorando e a chamando de “mami” que convenceu a assistência social que eram uma família, com problemas, mas uma família. Foi então que o Marido de Deolinda quebrou o silêncio para comentar que a feijoada estava excelente, que gostara da festa. Abriu um sorriso e piscando os olhos com cumplicidade perguntou se a brincadeira de bater no marido depois da festa era tradição brasileira, e se ele devia se preparar para alguma surpresa quando chegasse o aniversário dele.

Deolinda suspirou em silêncio. Não valia a pena responder.

O BILHETE

O BILHETE

Palmira Chagas

Deolinda esta limpando sua última casa quando o telefone toca. Era Marina, e ela estava aos prantos.
-Deolinda minha amiga, me ajude. Marina soluça do outro lado.
- O que aconteceu amiga? Espera um pouquinho, vou parar de vequiar. Diz Deolinda desligando o aspirador de pó.
-Deolinda, Deixa eu te falar, eu to limpando uma casa de primeira vez, na casa tem um papagaio pequeno todo branquinho que tem um penacho na cabeça. Inicia Marina.
- Um periquito, você quer dizer... corrige Deolinda.
-Não, é um não tão grande como um papagaio nem pequenino como um periquito. Mas deixa eu te falar, a gaiola do bicho estava muito suja e eu resolvi limpar para causar boa impressão, e agora to angustiada, o bicho saiu da gaiola, já to quase uma hora tentando pegá-lo de novo e não consigo! Que que eu faço amiga?
- Como vou saber, Marina? - responde Deolinda.
- Linda você num disse que tem uma ararinha em casa que fica na gaiola e eles soltam de vez em quando? Você num disse que ela voa e sua a casa inteira? Como é que a colocam de volta na gaiola ?
- Marina a ararinha é deles e ela não tem medo de ser pega. Responde Deolinda.
-Me dá uma idéia Deolinda.
Deolinda pensa, está louca para acabar de aspirar a casa e ir embora. Tem que dar alguma ideia pois se não a amiga não vai deixá-la em paz.
-Já tentou jogar uma toalha em cima dela, como se fosse uma rede? Tenta essa que vai dar certo. Deolinda diz isso e desliga o telefone.
Cinco minutos depois o telefone toca novamente. Novamente Marina. Está chorando mais ainda:
-Deolinda fiz o que falou. Peguei uma toalha grande e joguei em cima dela...
- O que aconteceu, pegou a ararinha? Responde Deolinda impaciente.
-Não, mas quebrei três vasos de cristal que estavam numa estante. Com vou fazer agora. Preciso pegar esse passarinho! Vou ter que pagar esses vasos... chora Marina.
-Bem amiga, quando eu morava na roça, em Papucaia... começou Deolinda.
- Ué? Você não disse que era da cidade do Rio? -se espanta Marina.
-Claro que eu sou é que passava as férias na roça com minha a vó que era de lá. Responde Deolinda que quase fora pega na mentira, pois não era natural da cidade dos cariocas.
- Bem minha avó costumava balançar uma vara grande de bambú para derrubar morcegos, pegue o espanador e balance devagar para ver se consegue deruubá-lo. Termina Deolinda e desliga em seguida.
Mais cinco minutos o telefone toca de novo. “ É hoje que não acabo meu serviço!” – Pensa Deolinda atendendo de novo.
- Desculpas, caiu a ligação Marina, mas pode falr, deu certo? Derrubou a ararinha? Pergunta Deolinda.
- Sim derrubei, quebrei um vidro da janela e acertei de cheio da cabeça dela e ela ta agonizando agora no chão. Que que eu faço Deolinda? Eu matei o bicho. Ela tá se debatendo . Ela ta saindo muito sangue. Ela , ela parou de mexer. Morreu!! Morreu Deolinda!!!
Deolinda ficou paralizada.
- O que eu faço?
-Tenta reanimá-la, vai ver que não morreu. Diz Deolinda.
- Tá mortinha Deolinda, meu Deus! Que vou fazer agora.
Foi aí que Deolinda teve uma ideia brilhante:
- Marina, se acalme, limpe os cacos de vidro, faça um bilhete tentando explicar o seguinte...
- Em português?
-Em inglês é claro Marina!
-Mas eu não sei escrever inglês... chorou Marina.
- Eu dito para você, pegue a caneta.
Bem depois de quase 30 minutos o bilhete ficou pronto, foi colocado sobre a mesa da cozinha junto com uma caixinha de sapato contendo a ave morta.

“ Ms Curtiss:
I take off your vase of the glass from stants for clean and I put over the table, when I saw your bird and I think he was very sick. Maybe heart attack. I run to save him and I left down the pots and they is breack, but I understand you love more your pet then vase of glass. I get him out the his house and he was very, very sick. I put him in front me and I pray God to save him. God send a angel and he get well. Very well and he fly over my head right to celling fan, the fan send hin to window and he hit the head and he is died. I think God was saving him, because I was praying but he remember he write before today is the day for his died, and God can change his mine.
Sorry.
Marina”

quarta-feira, 15 de julho de 2009

CALL 911

Palmira Chagas

Domingo. Hora do Almoço. Deolinda e Marina que grávida, já perto de ter o bebê, estão num restaurante americano. Desde que Deolinda fora morar com o “marido”, só se falavam por telefone, e mesmo assim raramente. Deolinda não parecia a mesma alegre e falante do passado. Estava mais magra, olhos fundos, cabelos loiros com uns dois dedos de raiz negra, pois já não tinha tanto tempo para se cuidar. Deolinda se deixava cair na cadeira, olhou nos olhos da amiga e começou a falar.
- Marina, tô na vala! Nem sei como foi que me meti nesta! Mas deixa eu pedir duas cocas primeiro, pois tô morrendo de sede. E você? Como vai?
- Deixa eu te falar , a vida num tá lá essas coisas, mas meu GreenCard de 2 anos já chegou, tenho minha drive, vou levando...
- Can I help you? Era a garçonete que chegara.
- Fala você Deolinda meu inglês num é essas coisas, você fala bem.
A garçonete, como uma estátua, entregara o cardápio e esperava a resposta. Deolinda falou:
- Can I have two “cocks” please?
A garçonete-estátua, girou os olhos.
- Two cocks please! Insistiu já irritada Deolinda
- We do not sell cocks, I am sorry. Responde a garçonete com um sorriso forçado.
- You do not understand: I want two cocks over this table. Deolinda começou a levantar a voz. Falar alto mesmo.
- Please! Don’t do that! If you do, I call 911! E se retirou deixando em cima da mesa o cardápio.
- O que que foi isso Deolinda! Não aguento ser ameaçada por esses americanos! Tudo para eles é esse 911!
Deolinda se recuperava, não sabia se sentia raiva ou vergonha. Disfarçou a emoção pegou o cardápio e começou a escolher.
-Não se aborreça não amiga! E sses gringos vão para o Brasil, falam tudo errado e a gente leva numa boa. Aqui eles não se esforçam nem um pouquinho prá nos entender! Diz Marina tentando consolá-la, será que eles podem fazer duas torradinhas para nós?
-Torradas? Na hora do almoço?
- Tô cum desejo amiga... ce sabe como é gravidez , né? - Diz Marina cujos olhos verdes brilhavam dando a impressão que o desejo era muito grande. - Tem que ser duas, uma prá mim e outra para o meu filhão que já vai nascer!
- Ok!
- She want two pieces of toast. A garçonete olhou para grávida, entendeu o que Marina falara e voltou trazendo uma fatia somente num prato.
-She want two pieces. A garçonete não respondeu.
-She want to pieces.
- Do you want to piss? Go to the toilet – responde a garçonete - is there, e apontou para o local.
- You do not understand, she want two piece in plate. Deolinda apontou o prato de Marina com uma fatia somente de torrada.
O rosto da garçonete se transformou. Primeiro as duas malucas queriam dois machos sobre a mesa, chegaram a gritar por causa disso. E agora querem urinar num prato? Seriam loucas? De qualquer maneira ninguém iria fazer isso em seu setor no restaurante.
-Please! Do not do that! Disse devagar para ter certeza que entenderiam. Do not piss in the plate. E apontou o prato. If you piss in this plate I will call 911.
Deolinda gelou, sacudiu a cabeça. Chamar 911 porque queriam comer duas torradas! Marina entendeu o 911 e ficou mais confusa ainda. De novo? Seriam racistas? Vai ver que não gostavam de imigrantes.
A garçonete saiu para se recuperar, e Deolinda resolveu que iria apontar o que queria no cardápio. Achava humilhante não poder falar, as amigas confiavam sempre no seu inglês, no que estaria pensando Marina? Era melhor não falar por enquanto. A comida veio, os pratos foram colocados os talheres embrulhadinhos sobre o prato. As duas preparavam-se para comer, Deolinda abriu o embrulhinho com os talheres. Não tinha garfo. Duas colheres e faca. Olhou os de Marina, os garfos estavam lá. Detestava comer de colher. Chamou a garçonete.
- I want a fork.
- Everyone want a f*ck. Disse a garçonete sem demostrar nenhum espanto.
-You do not unsderstand. I want a fork in my table.
A garçonete olhou as duas. Seriam lésbicas aquelas infelizes?
-Do not f*ck on this table, because if you do, I will call 911.
Marina ficou nervosa. Ela tinha Greencard, Não era ilegal! Não tava pra ouvir desaforos! Mesmo assim resolveu apaziguar a garçonete:
- Peace for you! Peace for you! Disse sacudindo as mãos!
- Piss on you too! If This happen again, I will call 911 ! Responde a garçonete se afastando.
Marina põe a mão na barriga. Ainda tinha muito medo de imigração, polícia e tudo mais, esse número a intimidava. Uma dor fina, uma pontada estranha, um líquido escorre embaixo de sua cadeira.
- Deolinda, chegou a hora! O bebê vai nascer! Chame os médicos!
-Call 911! Call 911 ! Deolinda está tão aflita que já está gritando. A garçonete volta, vê o líquido, ouve os gritos, entende que ela não fora ao banheiro de propósito. Pensa que é provocação.
-I will call 911!

quinta-feira, 25 de junho de 2009

O GOLPE DO PAPELIN

- Deolinda! Vou dar o golpe do papelin!

- Que é isso Marina? se espantou Deolinda que sendo do Rio de Janeiro, tinha já ouvido falar de vários golpes, mas esse era novo. Marina, sua simpática amiga goiana, morena de olhos verdes, estava radiante.

-Vou casar com um americano sua boba! Estou namorando um tempão, lembra que te falei do meu bóifriend? E agora ele quer casar! Vou ter papelin, vou tirar minha draivi!

Conhecera Marina um tempo atrás. Precisara de uma ajudante e a indicaram. Muito falante e alegre. Deolinda passou a encontrá-la sempre para comerem pamonha na loja brasileira. E foi no dia do casamento dela que Marina apresentou à Deolinda Benjamin, primo de Paul. Um sujeito loiríssimo com cabelo nos ombros, chapéu na cabeça, cinto de couro com fivela prateada, corrente no pescoço vermelho.

- Esse aí disse que é um fazendeiro. Ele tá precisando de grana. Ele se casa por dinheiro.

Deolinda se interessou. Quem sabe era sua chance, a vida trouxera tantas coisas para ela assim de repente. Esse ai poderia ser mais um repente de sua vida!

Com a intervenção de Marina e Paul toda a negociação foi feita. BJ, como o chamavam, queria a princípio 20 mil, mas acabou aceitando 10 mil em cash. Casaram, uma advogada de terceira foi contratada, tudo ia bem até o dia da entrevista quando a advogada não pode entrar para poder ajudá-la, Deolinda acabou tropeçando e caiu na desconfiança da imigração. Sorte dela que os oficiais acharam que ela não entendia nada de inglês, o que era verdade, e por isso não estava dando resposta certa. Iriam apenas conferir o seu casamento no local.

Ela localizou o BJ e se encontraram num Mac Donald qualquer. Entregou o papel da imigração. Ele leu. Mexeu-se na cadeira pra disfarçar o nervosismo:

- Tomorrow. I ( apontou para o peito) and you, ( apontou pra ela) ( Fez um gesto significando uma casa). I (Parte que Deolinda não entendeu e fez um sinal de pegar com as mãos ela e outro mostrando coisas ) . 7 pm

-Ok . Concordou Deolinda, ela era experta entendeu tudo, agora teria que mudar-se para a casa do sujeito por um tempo até as coisas se arranjarem. Seria por pouco tempo. Tinha certeza.

Um dia depois esta seguindo o “marido americano” pelas Hwy até que essas acabaram e entraram por umas estradas secundárias apertadas onde só haviam sítios. A casa ficara nos fundos de uns dois acres de terra, o capim estava alto e da rua não dava para ver bem o local. Ele desceu, abriu a porta e 5 garotos correram para encontrá-lo. “ Meus filhos” explicou cuspindo um palito de dente mastigado e pegando outro novo.

A casa era uma antiguidade, cuja garagem ostentava umas 6 cabeças de veadinhos de olhos esbugalhados, teias de aranhas por todo lado, tratorzinhos, cortador de grama. Brinquedos estavam misturados com os sacos de lixo que ainda não haviam encontrado um destino.Os meninos brancos- embaçados por foligem, todos loiríssimos de cabelos compridos, macacão jeans, pareciam terem saido de um filme americano antigo.Tentavam se arrumar para recebê-la.

Entraram pela cozinha. Fedia a gordura de porco. Tinha uma arara ou papagaio ela não soube identificar, no meio do que seria a mesa da cozinha, penugens voaram por todo lado, quando o homem ligou o ventilador de teto para disfarçar o cheiro, pois reparara na cara de Deolinda que o cheiro a incomodava.

Uns cachorros dormiam no tapete da sala. Nos sofás dois gatos velhos dormiam. Uns lençóis estavam estendidos sobre alguns sofás. Havia dejetos de passarinho pelo lençol, e pela sala. Parecia que o sujeiro soltava a ararinha de vez em quando.

Subiram. Havia 3 quartos. Dois ocupados pelos meninos, bem parece que o golpe do papelin estava se complicando. Mas com a imigraçao em cima dela, não podia nem pular fora. Tinha que aguentar. Ele sentou-se na cama alta. Tirou o outro palito de dente que mascava desde a entrada da cozinha. Cuspiu-o no chão. Pegou um novo. E disse algo que fez Deolinda estremecer:

- I am sick. I am retired.

Deolinda estremeceu. Casara com um homem doente, ele ainda por cima retardado? Não não pode ser!

- (....... parte que ela não entendeu. ) Transation amount!

- Transation amount? ? - Caramba. Esse sujeito está beirando 50 é doente, retardado e quer sexo aos monte!

- Yes transation amount!

-Chure? Transacion aos monte? ?

- Uan time ao mont .

O sujeito entendeu que o pagamento seria uma uma vez por mês, e deu uma gargalhada, quase engolindo o novo palito de dente.

- No! Here, ( apontou o chão) in USA , is every Friday.

- No! Ao mont ( ao mês) is aos monte to brasilian. Disse Deolinda, que não suportando a idéia de fazer sexo toda sexta feira com aquele sujeito. Uma vez no mês, ela poderia arranjar uma desculpa qualquer.

- Ok . Ele balançou a cabeça. Twice a month!

Ele faz uma vez no mês, mas tem que ser no gelo?

Deolinda desabou numa mala velha. O grandalhão ficou desconcertado. Ele com certeza pensava na fria que entrara com a imigração. Devia ter recebido os 20 mil para que valesse a pena. Agora ela não queria ou não podia pagar mais nada. Pelo jeito não tinha mais dinheiro. Pagar uma vez só no mês! E ele com os cinco guris para sustentar! Mesmo assim arriscou mais uma vez:

- Ok, if you do dogs, do cat and do parrot, and clean my house: One time a month!

Deolinda começou a chorar! Teria que fazer tudo isso, no gelo, fazendo cachorro e gato e ainda por cima limpar a casa de graça!!!

Seu sonho americano virara pesadelo!

AS CONFUSÕES DE DEOLINDA

Deolinda estava feliz. Quem diria que depois de um ano somente já estaria limpando suas casas sozinha? Vacilara em algumas coisas, não conseguira a carteira de motorista antes de vencer seu carimbo no passaporte. Nunca pegara num carro antes e tivera que aprender primeiro. Tinha uma Tabajara. Tudo ia dar certo. Era só dirigir com cuidado.

Estava num bronze novo. Era verão e finalmente conseguira tempo para ir a piscina do condomínio. Ria sozinha pois lembrara do que acontecera no primeiro dia que foi pegar uma cor. Escolhera seu melhor fio dental, o mais decente porque disseram que americanos são pessoas “ envergonhadas.” Deitara de costas para o sol e dormia um pouco quando acordou entre dois policiais. Um da cor fortão arrumado e um branco bombado. Sentiu-se privilegiada pois os dois a olhavam com um olhar... um olhar parecendo que... bem vocês sabem.

Sentou-se ajeitou a parte de cima do biquine.Tinha aberto as tiras das costas pois odiava aquelas linhas brancas ! Arrumou melhor o cabelo loiro desbotado, sorriu. Eles estavam sérios e compenetrados. Parecia que realizavam alguma coisa contra vontade. Não entendeu nada do que o da cor dizia, coisa difícil entendê-los ! Já quando o Bombadão , falou ela entendeu alguma coisa. Tinha alguma coisa acontecendo com seu biquini. Ele repetia, repetia e ela olhava o biquini, até que chegou um outro brazuka do condomínio e explicou o que acontecia. É que algumas senhoras americanas ,gordas invejosas , haviam chamado a policia dizendo que ela estava atentando contra a moral e a decência do lugar.

Imagina! Ela que escolhera o melhor e decente biquini! Tudo por um biquini... era seu corpinho lindo que causava inveja. Bem, foi convidada a se retirar da piscina. Tivera que comprar um biquini brasileiro normal dos anos 80 para voltar na piscina. Fazer o que?

Chegara na casa da cliente. Pegou seus apetrechos, um rodo( que comprara numa loja brasileira) um aspirador barato um balde cheio de camisas velhas transformadas em pano de limpeza. Tocou a campainha e esperou com um sorriso.

_ Good morning! A senhora simpática abrira a porta. How are you today?

_Gud mornin. Ai eme faine!

Era tudo que lembrava das respostas a saudações de seu Ingles sem barreras. Excelente curso! Estava conseguindo aprender Ingles e espanhol, ao mesmo tempo! Mas a patroa continuou a falar.

-You look good! Wonderful tan!

Deolinda estava radiante! Não é que entendera a primeira parte? Com certeza era sobre o seu bronze que falara. Era experta mesmo! Sua experteza a levara até ali, e sabia que iria ganhar muito dinheiro.

- Where you ( Deolinda perdeu o que ela falara) tan?

Perguntara com certeza onde foi para ficar tão bonita.

_ Ai gara from …. ( piscina, como é mesmo que fala piscina? Melhor falar qualquer coisa, faz de conta que fui a praia. Praia eu me lembro) bitchttt.

A patroa olhou confusa.

Será que não pronunciara correto? Achou que era get nunca saubera quando é take, get ou pick. Mandou ver:

- Ai pickerapi. from biccchh .

O olhar ficou mais confuso. Arriscou mais uma vez.

- Ai teique from bitxxxe.

A patroa calou-se sacudiu a cabeça e a deixou passar. Deolinda estava aborrecida. Suas amigas falavam que americanos não gostam de se esforçar para entender estrangeiros, era verdade. Podia agora sentir na pele.

Compenetrou-se no trabalho. Caprichou em tudo. Trocou os lençois e colocou para lavar. A patroa dera uma saidinha, queria fazer uma surpresa. Acabou de arrumar a última sala e ouviu o carro da patroa. Pegou o cheque sobre a mesa da cozinha, seus apetrechos já estavam no balde, ia saindo quando cruzou com a patroa que já entrara na cozinha. Arriscou seu ingles mais um vez.

-Ai clin your xit.

Desta vez o olhar da patroa a confundiu. Não parecia estar alegre.

- Ai djusti clin iour xit.

A patroa subiu correndo . Deolinda a seguiu. Passou na frente dela no corredor, seguiu até a lavanderia e mostrou os lençois já dobrados e secos.

Foi ai que a patroa olhou para ela e riu. Riu não gargalhou. Gargalhou não explodiu de rir! Ria tanto de Deolinda que ela foi ficando sem graça! A patroa só conseguia dizer nos intervalos, um sorry intermitente por causa das gargalhadas.

Bem que suas amigas de Goias diziam que americanos são doidos! Que graça tinha em um lençol dobrado?

DEOLINDA A CARIOCA EXXXXPERTA

(A partir deste mês estaremos contando algumas histórias engraçadas e situações desesperadoras que algumas pessoas já passaram aqui, por não saber falar, ou escrever em Inglês, ou ambas as coisas. Juntamos algumas histórias engraçadas e criamos uma personagem, para que seja não identificada a pessoa envolvida na história. Deolinda é o nome. Como a história pede uma pessoa esperta, ou que se acha eXperta, com X por causa do sotaque ( risos) eu achei melhor que fosse carioca, afinal, quem no Brasil inteiro acha que é mais esperto que os outros e que pode dar um jeitinho carioca nas coisas? É claro que são eles os cariocas da gema ou da clara. Sem preconceito nenhum afinal eu tb sou de lá!)


A Carioca Experta. – A chegada nos States
Era alguém que pensava que sabia mais que o mundo inteiro, prá tudo tinha uma solução ou conhecia alguém que conhecia. Era Deolinda, uma morena de cabelos loiros já ressecados de tanta escova progressiva, mas conhecida como Linda – a carioca.
O que os crédulos amigos goianos não sabiam é que Linda não nascera exatamente na cidade do Rio de Janeiro, como todos pensavam, mas na cidadezinha de Papucaia, há 60 km do Rio no pé da serra de Friburgo. Um dia, por sorte, alguém arrumou um emprego de doméstica na cidade do Rio. Iria trabalhar com um rico banqueiro. Deu adeus a sua vida interiorana e se foi treinando puxar o X em todas as palavras com S para não ser “a diferente” na cidade.
Morara com os patrões num belíssimo condomínio fechado, na Barra da Tijuca e foi ali que conheceu algumas diaristas, faxineiros, porteiros do lugar e conversa vai, conversa vem, ficou sabendo que vida boa levava diaristas nos Estados Unidos. E um sonho nasceu em seu coração, tinha que ir para o tal Isteites, ali sim que era o céu.
E não e que a sorte a ajudou? Foi assim: O patrão tinha uma casa em Miami, a babá ficou doente e deixou o emprego, ela foi transferida para a função, pois era a mais antiga na família. Eles precisavam viajar, e ela foi convidada a ir junto. Tiraram passaporte, visto tudinho! E Deolinda começou a planejar seu futuro. Tinha que fugir dos patrões e ficar por lá! Lembrou-se então de um primo do primo do irmão de sua cunhada que dissera que morava em Atlanta, entrou em contato com a cunhada que acionou os canais de comunicação. O primo era empresário de limpeza na América, e a receberia com certeza.
Foi no finalzinho das férias deles, exatamente depois de um mês e meio, férias de rico é maior que a dos pobres, que ela desapareceu. Deixou um bilhetinho dizendo que sentia muito mas precisava mudar de vida e aquela era sua única chance. Como tinha visto para 6 meses, embarcou num vôo para Atlanta, e nem precisou de usar de sua experteza ali, quase todos sabiam espanhol. E desembarcou horas depois toda feliz.
Então foi que começou o teste para sua esperteza. A princípio foi seguindo o grupo que descia do avião e viu que todos pararam numa estação de metrô. Olhou as palavras, nenhuma conhecida. Viu os desenhos das malas. Resolveu seguir os desenhos das malas pois não sabia para onde o trem iria. E se fosse para o centro da cidade ? Como é que iria voltar? E o primo do primo do primo sei lá mais o que, onde estaria esperando? Assim Deolinda, expertamente seguiu os desenhos da mala por longo tempo. Reparou enquanto seguia, já cansada, que tinha uma esteira rolante, caminhou muito tempo ao lado da esteira até que decidiu pegar uma carona e “caminhada” ficou um pouco mais curta. No final da esteira viu o sinal na mala de novo e uma escada rolante só para subir.
“ É nessa que vou, mas se estiver errada como farei para descer?” pensou. “Bem o jeito vai ser descer numa velocidade maior que da escada que sobe, mas isso é facil. Sou carioca , sou Experta!”
Por sorte sua estava correto o sinal, mas a mala não conseguiu achar. Foi procurar um atendente. Tinha que se virar com seu inglês para viagem..
-“ Mai beg…”
-“Mai beg…”
Só saia isso, o atendente, por piedade ou porque queria ir embora, só deixou-a repetindo uma 10 vezes, pegou um desenho de uma mala e perguntou alguma coisa que Deolinda não sabia o que era.
-“Yes, mai beg”
Ela fazia sinais com as mãos que daria para qualquer brasileiro saber o que estava dizendo, mas o sujeito era Americano e de cor! Bem o atendente já com vontade de rir, pegou várias cores e colocou sobre a mesa e perguntou de qual cor era. E ela por um poder divino, entendeu e apontou o azul, depois o atendente mostrou os tipos de mala e assim foi...
E o primo não aparecia, por fim ela nervosa, quase chorando, apontou para um telefone e disse:
-“ Eu preciso fonear” e o atendente, muito solícito, coisa rara de se ver, emprestou-lhe o telefone e ela ligou para o primo que atendeu ainda em casa, calmamente, dizendo que estava esperando realmente que ligasse.
Bem estava na América e a carioca experta saiu feliz. Não era uma malinha que demorou quase uma semana para rever que iria abatê-la. Agora era só arrumar umas faxinas e pronto!!! Tudo estaria resolvido.
Ela descobriu, no entanto que nada era fácil aqui. Que a empresa do primo só comportava ele a mulher e uma ajudante, e o máximo que o primo faria, era colocá-la no lugar da ajudante e que ganharia 15 dólares por casa, grande ou pequena, e que teria que fazer os banheiros da casa e a cozinha.
Cedo muito cedo, Linda aprendeu que havia gente mais esperta que ela e que estava sendo explorada. Limpava os piores lugares da casa, o primo ficava conversando com as clientes enquanto ela trabalhava. Na primeira semana o primo que achava que ela já sabia tudo, mandou-a buscar uma Trash bag. Explicou onde estava e ela subiu para procurar. Não encontrou pois ainda não havia sido apresentada a dita cuja em seu estado original, ainda na caixa. No caminhou passou por um quarto cujas gavetas as roupas estavam saindo para fora, sapatos estavam para todo lado e ela pacientemente colocou-os no lugar, e começou a arrumou as gavetas. Esqueceu-se do saco de lixo.
O Primo subiu como louco atrás dela logo assim que percebeu que não voltara. Xingou muito, perguntou porque “fuçava” as gavetas, de sua cliente, disse que roubara coisas. E Deolinda teve que tirar a roupa para provar que nada disso tinha acontecido. O primo não satisfeito, afirmou que não era suficiente pois tinha gente que escondia coisas no corpo, e Deolinda desesperada tirou tudo! O pior aconteceu quando a mulher do primo apareceu e pensou que era sacanagem dos dois! Quase que ficou sem teto! Precisou implorar muito para não ir para a rua.
Numa outra ocasião o primo mandou limpar a lareira retirar as cinzas antigas. Ela caprichou na limpeza e retirou inclusive uma caixinha cheia de cinzas que haviam guardado lá. O primo quase morreu!
“ Sua ignorante! Você jogou as cinzas da avó deles fora!”
Deolinda teve que se virar e limpar as cinzas do lixo, para recolocar no lugar. Peneirou o lixo e a caixinha ficou cheia de cinzas de lareira com as da avó! Afinal cinza é cinza! Que sufoco meu Deus!
Entrou num cursinho de igreja. Comprou um Inglês sem barreiras e depois de muito sofrer , resolveu tirar uma Tabajara e fazer seu isquedio. E no dia que se libertou do primo, resolveu comemorar com um amigo num restaurante Americano. No Ryan’s mais precisamente. Com sua câmera digital rosa nova, resolveu tirar umas fotos para colocar no Orkut. Estava tão feliz que pediu um Americano que tirasse as fotos. Ao entregar a máquina falou:
-“Plisss fok in mi.” Falou bem alto orgulhosa de seu inglês. O Americano segurou a máquina sem entender. “Fok in mi Fok in mi!” repetia desvairada!
O restaurante veio abaixo . Todos riam, e ela pensou que era por estar tirando fotos sobre a mesa. E repetiu sem se importar - “Fok in mi. “
Foi então que o amigo a puxou de lado e disse o que estava falando. Deolinda se sentiu arrasada, voltou para casa pensando que era muito difícil ser experta neste país!

DIARIO DE UMA PIRACAJUBENSE

DIÁRIO DE UMA PIRACAJUBENSE
Palmira Chagas

Deixa eu te falar o que aconteceu comigo. Ce sabe que hoje é sexta-feira, e depois de limpar 5 casas por semana lá pelas 4 da tarde, a gente tá mais morta que viva. Eu tava doidinha pra chegar em casa, quando meu patrão, recebeu um telefonema urgente, chega doeu porque sabia que era alguém queria limpeza, 4 horas da tarde na sexta feira depois de limpar 4 casas, tem base ? A gente tava morto, mas ele, que é muito custoso, ainda quis servir a essa cliente que havia mudado para o centro de Atlanta, e lá fui eu mais ele. Fazer o que? E relpi tem escolha?
Nós encontramos com a Miss no centro de Atlanta. Meu patrão seguiu o carro dela. E foi nesse dia que comecei a aprender minha primeira lição de relpi. Ce sabe como sou ruim de reparar nas coisas, assim fui dormindo a viagem toda e só acordei na hora de descer, e é claro num reparei onde tinha ficado o carro do patrão nem o nome da Miss eu sabia, aprendi chamar todo mundo de missi, tinha precisão de saber isso ?
Notei umas arvrinhas na frente do prédio, bonitinhas que só! Deu até vontade de tirar uma foto ali com minha nova digital mas eu tava muito escabelada . Vi que que tinha três andar de parar o carro, que o prédio era dos bacanas mesmo. Subimos até o quinze, ai paramos, a Missi de cor, abriu a porta do apartamento no final do corredor e disse o que queria.
Tin de vê. O apartamento era todo branco, carpete tudo! Lindo dimais da conta. Abri a janela e fiquei apreciando a fresca. Só um tantin! Tava um lindo fim de tarde. A Missi ainda iria mudar, segundo meu patrão ela havia dito que estaria no dezoito caso houvesse precisão de falar com ela. Lá tinha um ginásio e ela iria fazer massagem.
Quando estavamos no meio do serviço surgiu uma necessidade de saber sobre o que fazer com algumas caixas que estavam no meio da cozinha. Ela não atendeu o telefone .Assim meu patrão disse que eu deveria de subir até o dezoito e perguntar para a Miss. O Bocudo já foi logo me avisando que não era pra demorar, me deu uma frase pronta, uati ai do uiti de box e eu deveria guardar de cabeça a resposta. Como o elevador estava demorando demais da conta pensei que deveria ir de escada, afinal era só três andar, para que não tivesse amolação dele na volta.
Entrei alegrinha na escada e quando cheguei no dezoito, cadê que dei conta de abrir a porta? “Será que está estragada? Pensei. Um prédio desse lindo com uma porta que não funciona essa é boa! Vou descer até o dezessete”. Cheguei no dezessete, a mesma coisa, no dezesseis, fechada. “ Bem entrei pelo quinze, saio de novo por lá!. Pensei. Que nada! Também fechada! Foi desjeitin que to te falando! Subi umas tres vez desci otrotanto devez! Num precisa nem falar que eu tava sem sabê doncovin nem proncoia.
Sentei na escada. “ Como é que eu fui dar uma rata daquela!”. Precisa de pensar rápido mas tava cansada dimais da conta. Olhei pra minhas variz nas pernas, pensei em Piracanjuba! Que saudade! “Espero que meu marido teja fazendo nosso pé de meia porque to sofrendo demais aqui!”

Lembrei do telefone. Liguei, fora de área. Resolvi descer até embaixo, dezoito andar. Desceria batendo nas portas tudin tudin . Fiz isso. Num adiantô nadinha! Nenhuma abria, só quando cheguei na portaria a porta se abriu. Parecia que era marcação comigo!
Fiquei feliz quando vi o porteiro um de cor que me olhou cobiçoso, de cima em baixo quando entrei com a patroa. Tentei no meu inglês fazer com que soubesse do acontecido
-Ai eme rouseclin. Ai eme uiti Miss ( percebi que não sabia o nome da Miss ).
O cidadão me olhou com cara de ignorante, como se nunca tivesse me visto e eu disse
-Ai eme loste ai nide iour relpi.
O disgramento fez com que não me entendia e precisei falar pelo menos umas seis vez para que ele me entendesse. Às vezes penso que isso é de propósito. Então me disse alguma coisa. E foi minha vez de num entendê. Ele me perguntou umas dez vez, e acho que pensou que era vingança minha já que me fizera repetir aquele tanto de vez! Mas não era, eu realmente não entendia o que dizia, pegou então uma lista enorme com os nomes de os moradores de todos os andares e me perguntou falando e através de sinais em que apartamento eu estava.
Eu não sabia. Meus neronos não funcionavam mais! Ahneim! Ce credita nisso? Sexta feira de tardinha depois de limpar 5 a seis casas por dia a gente tem condição de pensar nestes detalhes? Como eu não sabia, ele balançou a cabeça e me disse que precisava do nome do dono do apartamento. “ Pronto! Pensei, Agora que a vaca foi pro brejo!”. E eu balancei a cabeça que não sabia. Ai ele já tava perdendo as estribeiras e me perguntou e onde estava meu carro, porque teria que me retirar do prédio. Isso eu entendi. Falou alguma coisa sobre telefonar para polícia, e esse nome nós aqui aprende rápidin! E eu estava que nem uma barata tonta, e é claro: Num sabia tamém daonde que tava o bendito do carro!
Lembrei então do celular. Tinha tentado ligar pro meu patrão na escada, e me esqueci dele. Liguei. Ele já havia terminado a limpeza. Estava muito bravo e nem me ouviu. Disse que não ia me pagar porque eu era muito lisa. Ai não! Fiquei brava, mas ele desligou o telefone. Nem me deixou eu falar, tive de ligar de novo e dizer o que tinha acontecido.
Ele desceu furioso, foi falar com o porteiro. Pior! Acredita que não sabia o nome da patroa também? Só sabia o apelido! Acredita que não sabia o número do apartamento e nem onde o carro ficara? Tem base? Eu sou uma bestalhada, mas ele só vive se cartando que tem experiència de América. O porteiro então mandou que saíssemos do prédio pois caso não o fizessemos chamaria a polícia. Esse nome entendi também. Foi uma confusão! Meu patrão disse que as coisas dele estavam no apartamento, e que não havia recebido. Disse que iria subir ate o dezoito para receber o dinheiro e resolver o problema. O porteiro não o deixou ir. Ninguém mais iria entrar em prédio nenhum. Iríamos era sair dali.
Meu patrão então traçou uma estratégia. “ Interte ele ai, que pego o elevador e subo rapidin porque a mulher num tá atendendo telefone”. E entrou correndo no elevador que estava parado. Mas não deu certo, eu tava fedida, escabelada que só, e nem falar inglês eu sei! Era uma missão impossível! Foi só ele entrar e eu chegar perto que o de cor de trancinhas chamou a policia e eles num instantin chegaram. Graças a Deus que o patrão conseguiu pegar nossas coisas no apartamento e trazer a Missi de sua massagem até a portaria para explicar a confusão para os homens! Eles são custosos demais, pensei até que ganharia uma passagem de graça de volta para o Brasil, mas eles nos liberaram, ficaram com dó penso. E só foi liberar que a gente foi xispando fora!
Deixa eu te falar: que dia!!! Espero não passar por essa mais, fica a lição prá nós, as relpi. Não durmam o tempo todo, aprendam o nome das pessoas e sobrenome, e nunca entrem numa escada de incêndio, elas não abrem e são a prova de celular!!!

DICAS DE NATAL

Chegou o Natal, época linda e ao mesmo tempo confusa para todos que trabalham com limpeza, pois é a época mais apertada, mais corrida, com as casas entulhadas de papais noeis brancos, anjos, snowman, nutcrakers, presépios luzes de todas as cores, árvores pratas, brancas, verdes, e muitos pinheiros vivos, morrendo aos poucos durante todo mês de dezembro, para azucrinar a vida dos limpadores de casa de modo geral.

Nesta confusão, o que menos pensamos e no Natal. Muitas vezes nem dá tempo de enviar os cartões para a família no Brasil. Mas no meio da correria deste Natal, tire tempo para aprender coisas importantes, por exemplo: eu aprendi a conhecer meus clientes melhor analisando seus enfeites de Natal. Vou te explicar como isso funciona: analise o que mais colocam na casa e saiba a gorjeta que vão te dar, e não sofra de ansiedade por isso.

Quando a casa estiver estulhada de papais Noeis, provavelmente essa família te dará uma boa gorjeta, pois ela gosta de dar presentes, mas trate de dar algo para a dona da casa pois ela se ofenderá se não o fizer. Se tiver com Snowman, desista porque são gente fria demais e o dinheiro com certeza esta congelado e não poderão dar nada esse ano,nem no ano que vem, nem daqui a mil anos! Se estiver com Nutcraker, problema a vista! Provavelmente a dona da casa ainda vive a ilusão dos contos de fadas e fatalmente pensará que você é apenas uma escrava fiel e dedicada. Esse tipo geralmente dá chocolatinhos e biscoitinhos para os “servos” e esperam a retribuição do presente na hora e receber o cartão “Thanks” antes do ano novo. Se o Natal estiver com muitos anjos iluminando a casa toda, provavelmente receberá um cartão bonito, com uma mensagem tocante, pedindo para que todos os anjos te protejam no próximo ano e com uma gorjetinha magrinha dentro do cartão, pois afinal ficará ao encargo dos anjos a maior benção. Se tiver com muitas coisas misturadas, uma decoração confusa, significa que o cliente tá vivendo uma crise financeira, pois americano que se preza decora com cores escolhidas e bem combinadas todos os anos. E além de não ganhar gorjeta este ano, provavelmente ficará sem seu emprego logo.

Cuidado com as árvores e seus enfeites. Quer magoar um americano é quebrar algum enfeite que geralmente tem valor sentimental muito grande e dinheiro nenhum conseguirá pagar. Eu tive uma cliente que me dizia que os seus enfeites eram caríssimos, da Irlanda, da França, da Alemanha. E eram pintados a mãos pelo mesmo artista da rainha da Holanda, ela era muito rica e eu sinceramente acreditei por longo tempo, até que um dia entrei numa loja de 1,99 e encontrei a maioria dos seus enfeites ali. Pensei , é claro que os da loja eram cópias dos caríssimos que possuía em casa. Essa mesma cliente tinha uma árvore só para os cachorros delas que eram muitos por sinal. Ela tinha capacidade de comprar presentes para cada cachorro, um da parte dela, outro do marido e outros dois da parte dos filhos. Essa ai tinha Snowman demais... nunca vi a cor da gorjeta no fim do ano, mas ela me dava umas frutas especiais de uma loja de luxo: Pera, maça, passas. Legal esse lance da personalidade nos enfeites de Natal, não é ?

Numa outra casa eu descobri assustada que Jesus era negro e que toda sua familia também, os anjos e até o papai noel era da cor. De branco somente um snowman, acho que não o pintaram diante da impossibilidade de provar a existencia de neve negra. Nesta eu descobri que o que era certo era errado, o que era errado era certo para eles. A inversão de valores era tão grande que eles esperavam que eu trabalhasse de graça para eles na última limpeza do ano, pode? Era o presente que queriam!!!

Procure divertir-se neste Natal. Roube de vez em quando os chocolates e os biscoitos do Santa Clauss porque ele nunca reclama, realmente é um velhinho bem bonzinho. Se eles tiverem aquela lista de presentes, e se você for bom em falsificar caligrafia como eu, acrescente no meio a lista o seu nome e do lado coloque , dar um gift card de 100 dolares, quem sabe eles não acreditem que foram os autores da façanha?
Deixe para comprar os presentes de Natal no dia 26 de dezembro pois estão 50 por cento mais paratos, e finja que não pode entregá-los para os amigos na data certa isso ajudará a economizar bastante. E seja feliz. Saia para ver as luzes, comer com os amigos e nem pense em ficar estressado, beber demais, neste Natal pois suas casas cheias de fim de festa estarão te esperando no dia seguinte ao Natal e você terá que ter energia para sobreviver a isso.

Espero que as dicas o tenham ajudado e que você possa ter um Feliz Natal.

CONFUSÕES LINGUÍSTICAS

Dois sujeitos se encontram na loja brasileira na hora do almoço.
-Aê Coé mermão?
- Tô legal mané. Nem te conto. Tô vindo agora de conferir um bagulho que um maluco me bateu. Umax paradax manerax. Mas to meio deschavado pra te passá...
-Deschava e vai abrindo o bico...
-Tem unx lancex rolando ai nas Nightx. Monte de filé gringa mermão.
-Num acredito! Tu é maió arame liso! Vai me dizer que tá dando uma de fatality nax filé>
-Mermão, num sô otário aê!
-Demorô então prá tu deixa de ser arrox mané!
-Pô tu tá parecendo fura olho, maluco! Ta me Chatubando!
-Nada! Tu é sangue! 71 bom!
-Mermão a paradinha é o seguinte, eu sei que tu é cerol, então tô te falando pra tu conferi esse lance. Ax filé tão doidinhax pelox brazukas... é só tu soltá 50 conto que rola lance. Num tem pleiba na área...
Enquanto conversavam um americano ouvia a conversa. Estava confuso. Havia completado seu cursinho de português com louvor, e estava ali naquela loja pra praticá-lo, mas não entendera nada. Dresolver perguntar duas mulheres estavam perto. Ao que as duas prontamente explicaram:
- Oxente! Num se avexi não. São dois bestas encangados!.
-Um pensa que é abuletado mas num passa de um folgado! Acho que qué adular o ôtro com esse conversê. Tô enguiada!
-Mas sobre o que falavam, perguntou o americano, que entendia cada vez menos!
-Parece que um qué se amancebar com uma petrechada e o ôtro ficou aperreando! Arre Égua é um babão!
-Não! É um barnei que se abuletou, vai acabar batendo a caçuleta neste lugar de gringo!
-Vixe! Vai se amancebar com mulé de beréu! Num vê que falaram de uma boca quente de biscateira?
-E o outro bocó vai acabar indo ver os cambão cons cambito de fora!
E riam muito as duas enquanto o americano ficava voando.
-Caindo na esparrela do gato de hotel. Tomara tenha uma cabeça-de-prego nas partes, esses cabras safados!
-Elas não valem um cibazol! Vamos embora tô entojada!.
E sairam rindo muito. É claro que o americano continuou sem entender, vendo o que se passava outro brasileiro tentou ajudar.
-Bah! Tchê! O lasqueado que pensa que é guapo tá convidando o tramposo cupincha para ir a um surungo de chinoca biscate. Deve ser montão de bruaca. Esses dois são dois Chambões!
Bem , a essas alturas o americano não entendia mais nada. Meneou a cabeça revoltado. Três atendentes da loja, vieram ao seu socorro.
-Deixa eu te fala. Chega doeu ni mim esses dois custoso jogando conversa fora.
-Aneim! O bobagento achou um lugar de muié biscate, e convidou o outro pra conhecer. Tem Base?
-Num dô conta dum trem desse...
O americano saiu da loja, foi direto na Faculdade do Kenessaw e pediu todo o dinheiro que gastou nos dois anos de cursinho de português de volta. Afinal aprendera qualquer língua, menos português!!!

A ENTREVISTA

Eram duas velhinhas irmãs, que moravam num condomínio bonito, numa casa razoável, cheia de móveis antigos e empoeirados, com mil gatos dormindo em todas as almofadas, sofás, cadeiras e mesas. Uma segurava meu cartão e tentava pronunciar meu nome, tentando para parecer simpática.
_ Palmaira?
Eu sorri. Aceitei a pronuncia errada para não desmotivá-la.
_ Naici tchu mite iu. Disse na minha versão de inglês para pessoas que aprendem depois dos quarenta. Estava sozinha. Teria que me virar com o que sabia. Clamei a Deus “ Por favor me ajude a entendê-las”
—Please - disse uma delas abrindo passagem para a sala.
Fui entrando desconfiada de tanta amabilidade.
— Sit down please! Ouvi uma dizer.
Sentar? onde? como? Em cima de uns três gatos que me olhavam preguiçosamente?
Continuei em pé e minha alergia começou. Espirrei. Poeira, pouca luz do sol, as velhinhas com um cheiro característico de pessoas que só tomam banho de toalhinhas e os gatos... Ah! Os gatos ronronando por todo lado.
Uma saiu. A outra resolveu me mostrar a casa.
_ My nine cats is my babies. I fire the last house cleaner because she kick one, just because he scratch her legs, Its normal… cats do that!
Ohei toda casa em silêncio, vi pelos de gatos em bolas, por todos os lados, rodapés, ventilador de teto, e pasmem: dentro do vaso. Espirrei!! Será que eles usam o vaso? Mas tive esta pergunta respondida ao passar pela lavanderia e dar de cara com a famosa caixa que preserva os degetos dos bichamos. Um cheiro horrível. E espirrei de novo.
_Are You sick? E me olhou como se nunca tivesse visto alguém espirrar na vida. You need change ssss. Perdi a palavra! Mas, por sorte minha, ela apontou a bendita caixa mal cheirosa!!
Sorri. O que eu preciso fazer, será que ela espera que eu troque a areia dos gatos? Daqui a pouco vai querer que de banho neles também. Espirrei! Li um artigo na internet que se chamava COMO DAR BANHO NO SEU BICHANO, era bastante instrutivo: “ Abra o vaso, coloque-o dentro, e dê discarga. Repita operação seis vezes pois gatos tem sete vidas”. Será que poderia usar esse método simples e eficiente?
Lembrei-me de minha infância em Pavuna, subúrbio pobre do Rio de Janeiro. Lembrei-me de meu pai que tinha uma gata parideira e todas às vezes que tinha gatinhos eu os colocava numa bolsa de mercado de papel e os abandonava bem longe de casa. Será que devia usar desse recurso com esses gatos?
Comecei a desejar não estar ali, que fazer? A casa parecia linda por fora, um condomínio bacana, como poderia imaginar que estivesse neste estado de podridão absoluta! E foi assim que aprendi que aqui, quem vê casa por fora, não vê o coração da casa. E que deveria fazer alguma coisa para não me arrepender depois. Calculei então, numa casa normal sem gatos eu cobraria 100 dólares. Elas me olhavam com ansiedade. Eu então disse:
_ “Uan rundrede eiti tchu taime a mont” – disse no meu inglês cheio de sotaque, aprendido em dois meses num cursinho.
Elas me olharam incrédulas com o preço e pediram para que eu sentasse.Como? Em cima de três gatos no sofá? Foram para cozinha e confabulavam, e eu não entendia nada, imagina! Se não entendia quando falavam normalmente murmúrios piorou...
Voltaram , eu não havia sentado ainda elas pediram que sentasse de novo. Tratei de enxotar dois ou três gatos com todo carinho por gatos que encontrei em minha mente.
Voltaram para a cozinha... “Ah não! ‘ tão me zoando prá que tanta falação?” um dos gatos reclamou quando os enxotei. Ai ! detesto gatos! Bichos asquerosos, vivem se esfregando nas pernas da gente... Espirei. O que será que tanto falavam. Espirrei de novo! Eu precisava de mais uma casa. E se não aceitassem ? Eu não deveria ter pedito tanto! e agora? Firme Palmira são gatos demais.
Voltaram e estavam sorrindo
_ Ok! You can start tomorrow!!
Naquele dia voltei para casa chorando.... não sei se de alegria por pegar uma casa pelo dobro do preço ou por causa dos gatos, que eu detestava, mas tinham salvado meu dia!

A POMBA DA PAZ

Uma bala perdida acertou a Pomba da Paz que passava sobre a Marietta, mais precisamente sobre o Triângulo dos Brazukas, que é um triângulo imaginário que se pode traçar do Wood Chase até o Signature, deste até o Conception, e deste novamente ao Wood Chase. Ela não morreu, estendeu-se agonizante no alto de um dos prédios, no mais conceituado condomínio dos Brazukas, o Wood, na última rua, onde a turma do churrasco e samba costuma fazer altas festas verde-amarelas.
Alguém sugeriu, que sendo um condomínio predominantemente, brazuka, era melhor chamar a Polícia Especial para Persona Non- grata.
Cercaram o Wood no início da madrugada. Após muitos tiros e confusão em nome da Paz, uma outra bala perdida acertou uma house cleaner que voltava cansada, meio acordada, meio dormindo de fazer seus “ ofices”. Outro brazuka, Sr José, Piracajubence nato, dormia em seu apartamento com a porta aberta, pois sempre acreditara que a América era um lugar seguro, quando foi sacudido por um sujeito alto, negro, que o virou de ponta cabeça e foi logo acusando-o de ter cometido o crime. Tentou falar algumas palavras que aprendera no cursinho da igreja, descobriu que não lembrava de nenhuma mais! Com muito custo conseguiu balbucinar um Rau ar iu, o negão não gostou, achou que era desacato e levou-o algemado para o carro de polícia.
Logo que a Polícia para Personas Non-gratas chegou, foi uma correria geral.
-É a Tia Mimi! Apelido carinhoso dado pelos Brazukas a este importante destacamento do Governo. A coisa ficou preta pessoal. Os que estavam dentro avisavam os que estavam fora:
-Não volte! Tia Mimi tá na área! E a brazukada se espalhou por todos os lados.
Os da Tia Mimi, deram um sacode em meia dúzia que ousaram tentar sair no fim da madrugada. Eles até alegaram que eram gente de bem, trabalhadores, saidistas, rouseclinistas, e outros istas mas não adiantou. Para eles eram alguns ilegais que cruzaram o caminho, e que estavam saindo para arrumar um troco, roubando emprego de seus filhos.
O dia já chegava para os moradores do Wood, que não dormiram. Alguns resolveram dar uma espiadinha. Os da Tia Mimi nem sabiam mais ao certo porque estavam lá. Foram perguntar e alguém da luz azul e este falou da pomba. “ Ah! a Pomba! Então existia um álibe desta vez para o cerco.” Continuaram a interceptar as pessoas que saíam.
Algemaram alguns, correram atrás de outro que resolveu fugir, mas o Brazuka era um dos bons, daqueles que atravessaram o deserto sem água , que foram picados de cobras e não morreram, mesmo magrelo, com cara de desnutrido, sumiu depois de ter saltado três ou quatro cercas. Um outro conseguiu escalar o alto do prédio, foi perseguido por um sujeito comedor de hot dog, e ficou provado que feijão com arroz, dá mais força e agilidade que pão com salsicha.
O FBI chegou logo após o meio dia, e mais uma vez tudo se repetiu. Só que desta vez os Brazukas , colocaram um “avião” no condomínio, tipo aqueles moleques usados nas favelas do Rio, e este os avisara a tempo.
O Wood estava em alerta:
_Não sabemos o que querem, ninguém nos conta nada a respeito desta operação, alguém opinou que era por causa do samba e churrascada da última rua.
- Vamos eleger um líder, todos nós temos que ficar em estado de alerta. Ninguém come, ninguém bebe, ninguém sai de seus postos... Não comer era fácil, mas lei seca para a turma do churrasco era o fim!
Todo o Wood estava angustiado. O FBI foi recebido com um silêncio mortal. E naquela tarde, além de um espanador de D. Zezé ser confundido com um terrorista, e ter sido estraçalhado por uma bala, nada de mais importante aconteceu. O FBI afirmara que era bala dos Brazukas, e os Brazukas finalmente , conseguiram enviar uma mensagem para alguém de fora e a Anistia Internacional ficou sabendo, e denunciaram a Tia Mimi dizendo que eles estavam agindo com violência demais... afinal o que queriam?
A pomba mesmo, agonizava , ao lado de algumas crianças brazukas e hispanas que se acotovelavam no sótão daquele último prédio, na última rua, aquela das churrascadas. Esquecidas e longe de qualquer suspeitas já estavam ficando cansadas de ficarem acantonadas, quando é que iriam comer?
Os Federais não deram refresco: Atacariam ao romper da manhã seguinte.
_Um terrorista subversivo se escondeu no alto de um dos prédios, ao que parece o mesmo seqüestrou a Pomba da Paz. Nossa missão, ir resgatá-la.
_Sim Senhor! Gritaram todos animados com a manobra.
Então subiram pela Powers Ferry.
Subiram homens.
Subiram cães.
Subiram tanques.
Subiram helicópteros com pára-quedistas.
O Wood ficou cercado.
Encontraram o prédio.
Viram as penas.
Viram o sangue.
Viram algumas crianças fugindo.
Mas a pomba não estava lá.
É que as crianças, fiéis a ordem dos pais, não haviam deixado o sótão por mais de vinte e quatro horas. Então famintas, na noite anterior, acabaram comendo o símbolo da Paz!

A SOLITÁRIA

Cheguei para limpar a casa da Madame cedo 7:30 da manhã. Casa enorme, três pisos 7 banheiros. Precisava correr porque senão o fizesse não chegaria às 3 da tarde em casa. Depois e um “How are you” e um “ I am fine” apressado, liguei as turbinas e comecei a correr. Eu sabia que assim que a Madame acordasse iria me parar para conversar, ela era doente e sozinha, coitada! E sempre tinha:algum drama para contar. Descrevia tudo de uma maneira longa e especial, sempre achei que era de propósito para me fazer ficar mais tempo. Às vezes angustiante esperar até que acabasse. Bem House Cleaner vocês sabem, tem seu papel de ouvidor-mor, confidente, aluno, psicóloga, essas coisas.
Ela chegou na cozinha lá pelas 9 e começou a falar. Eu notei que ela estava apavorada, mas do que o normal, parecia meio angustiada : “ Será que realmente aconteceu algo interessante desta vez ou é encenação de novo?” Não dei muita importância, e ela começou:
_ Você não sabe, ( mas vou saber pensei passando 409 nos gabinetes brancos) Nunca mais vou a Acapulco! ( E eu com isso pensei novamente desta vez limpando os rodapés). Eu tenho um amigo muito, muito, mas muito rico ( e daí, todos os amigos dela sempre são ricos e importante, incrível, acho que pobre mesmo, somente conhece a mim e o jardineiro mexicano) Ele foi ao México e depois de três meses começou a sentir doente. ( É hoje que não chego em casa às 3 pensava)Parecia Fraco, desanimado. Fez todos os exames e quando fizeram um ultrasson com contraste, descobriram que ele tinha uma serpente gigante achatada, morando dentro do seu intestino e que ela estava agarrada por umas coisas com sucção. Tentaram tirar várias vezes mas ela quebrava e ficava no mesmo lugar. Não tinha remédio que matasse o “bicho”. Meu amigo tem quase dois metros, ficou magro e anêmico, sem encontrar uma solução.
Eu parei o que estava fazendo. Essa história estava ficando interessante
_ Uma serpente?
_ Sim uma enorme serpente chata que se instalou como um verme, os médicos disseram que é um parasita, um que só tem no México e em país pobre.
Eu não estava acreditanto. Era uma solitária, com certeza! Fingi não saber o que era e fiz uma cara de ignorante. Eles gostam disso.
Ela contou entusiasmada, afinal, eu parara de trabalhar e ela tinha minha atenção total e isso a fazia muito feliz. Descreveu, andando e gesticulando, o verme com precisão, disse que era muito perigoso, e que os especialistas de Atlanta não sabiam o que fazer com ele. Importante detalhe, fiquei sabendo através dela, que somente dois lugares fazem exames parasitológicos confiáveis aqui nos EUA, na California e um no Norte do país, e que os médicos não conhecem bem parasitas tropicais aqui.
Depois de fazerem o pobre vagar por vários hospitais, um especialista disse que juntamente com sua equipe, tinha uma solução, mas que para isso teria que passar entre 10 a 15 dias internado. Teria que assinar permitindo que fizessem uma tentativa nova, mas única, para livrá-lo da snake-parasita. “ O que será que fizeram , pensei”.

Bem, eles o colocaram de jejum, somente com soro, depois o colocaram numa mesa de ginecologista e nesta posição, alcançaram a ponta da snake, com um instrumento inventado para essa ocasião especial, e passaram a enrolar a ponta da “cobra” e prenderam. Cada dia enrolavam um pouco. O médico com Phd explicou que era necessário, para que não quebrasse e crescesse de novo.
Nesta altura da história eu estava me controlando para não rir, imaginei aquele homem de cor, de quase dois metros, assim ela o descrevera, na posição que ela descrevera com detalhes, com “um carretel” puxando cada dia um pedaço da solitária. “Não! Isso era o primeiro mundo! Deve ser mentira dela. Mas porque inventaria algo assim. Não ria - nao ria, nao ria, nao ria” eu pensava.
A gargalhada veio como uma onda de Tsunami que se recolhe e depois volta com força total. Eu ri tanto, tanto, que ela ficou chocada. Eu choravade tanto rir. “Esse médico ganhou uma grana nestes 15 dias, e tirou uma solitária!!” pensei. Eu ria mais: “Ele numa cama de ginecologia” e ria mais. Depois de alguns minutos com a cliente me olhando, sem entender nada eu consegui parar
-Você não tem respeito pela dor dos outros? Não te ensinaram a não rir quando acontece uma tragédia com alguém?. Isso foi horrível para ele, foi com muito sacrifício que ele conseguiu se livrar dessa coisa... Vocês estrangeiros são muito estranhos...
- Desculpas! disse finalmente. Eu não ri por isso, esse verme, chama-se solitária. Ela se instala no intestino da gente e sua cabeça se fixa, o médico estava certo. Ela quebra e cresce de novo se tentar tirá-la. Mas diga a seu amigo, que pode ir para o México sossegado, e você também não precisa deixar de ir a Acapulco. Da próxima vez que tiverem este problema, e só me chamar.
- E desde quando você é médica?
-Bem no Brasil ninguém paga 60 mil dólares, como você disse, para tirar solitária. Deixam a pessoa sem comer, sentam num bacia ( falei bacia porque não sei o nome de penico em inglês) de leite e ela desce para se alimentar porque está com fome.
Desta vez foi ela que riu. Não sei se porque seu amigo pagou caro ou porque imaginou-o sentado num balde de leite.

LIGANDO PARA MAMÃE

- Oi mãe tô nos Estados Unidos.
- (..)
- Não se assuste não, sei que eu disse que ia para a América, mas fui informada por uma amiga, que aqui, é os Estados Unidos. Que América é só o apelido do lugar, e além do mais, é mais chic falar assim.
-(...)
- Cheguei há um mês é já tô metida a besta? Deixa disso mãe!
- (...)
- Tô gostando sim, mas tô meia atrapaiada que nem cahorro que caiu da mudança, é um mundo véio de coisa nova prá aprender. Mas eu dô conta. Tudo muito grande.
- (...)
-Claro que nossa cidade é uma cidade grande mãe! Mas aqui é mais grande ainda. Como? Falar mais grande tá errado? Não tá não mãe! Eu tenho um amigo mexicano que fala assim o tempo todo e não tem problema nenhum. Se aqui é parte do México? Não, mãe, no começo até pensei que era, mexicano aqui, tem demais da conta. Tô até desanimando de aprender inglês porque nem precisão tem. Tudo aqui vem escrito em inglês e espanhol. E pra falar espanhol é facin, facin. Só falar errado nossa língua que eles entende tudin!
- (...)
-Claro que conheci coisas novas! Me interessei mais pela organização do lugar. Imagina você, mãe, que as coisas aqui funcionam. - (...)
- Como assim? Ai as coisas também funcionam? Mas mãe, aqui as coisas funcionam melhor. Veja bem, vou dar um exemplo: Aluguei um apartamentico de nada, num local pobre e todos os dias quando abro a torneira sabe o que acontece? Tem água! No início fiquei chocada, perguntei quantos litros tinha a caixa de água do prédio, meus amigos brasileiros me informaram que nem caixa de água eles tinham e que a água vinha direto da rua. Imagina mãe: todos os dias as torneiras com água. E a luz elétrica? Funciona! E só ligar o interruptor e pronto. Se algum problema acontecer, mesmo que seja tempestade e a energia for cortada, e algum aparelho seu for queimado, eles te pagam um outro novinho. Acredita nisto, mãe?
- (..)
-Mãe, a América é organizada mesmo. Aqui a gente pode comprar e depois devolver se não gostar, mesmo que a gente use antes. E essa brasileirada arranja um tal de compra e devolve, e eles atendem nós de boa. Sem problemas! Meu cunhado mesmo, outro dia foi na praia, esqueceu o aparelho de tocar DVD em casa, daí foi no mercado comprou um e depois devolveu no dia em que foi embora . Não é legal essa democracia? Tem um amigo meu que compra o véquio com garantia de um ano , em seis meses depois de usar, ele dá um jeito de quebrar a tomada e pega um novinho. É isso que faze a América é rica. Isso gera empregos porque, quando se devolve uma coisa eles tem de ter pessoas para examinar tudin e depois que verificam que não tem nada, encaixotar de novo para vender. Vê só como isso é bom pra eles: aquecem a economia sem gastar muito porque não precisaram fazer o véquio todo de novo, que que é esse tal de véquio? É o aspirador de pó mãe! Puxa tá dificil conversar assim!
- E os bancos mãe? A senhora tem que ver que beleza! No primeiro dia que entrei num me assustei, não tinha porta giratória, nem guarda tem, pode? Como? Virei mentirosa depois que vim para essa América? Mãe, não é mentira não, aqui nem fila o banco tem... Todo banco que se presa tem fila? Aqui é primeiro mundo. Nem precisão de entrar no banco nós tem . É só a gente dirigir até um postezinho que tem um buraco com um tubo dentro, para colocar o dinheiro que nem uma espaçonave pequena. A gente aperta um botãozinho e lá vai nosso dinheiro pelo túnel. Outro dia, meu dinheiro ficou preso no tubo sem subir nem descer, veio uma mulher lá de dentro, perguntou quanto eu tinha de dinheiro e me deu um recibo. Vê só mãe! Acredita nisto? Se fizessem um desses assim aí , seria um tal de neguim estragando o tubo para depois dizer que tinha um milhãode dolares dentro. Num queria nem ver! Eu mesma, se soubesse que era assim, iria aumentar a quantidade só um poquin para poder pagar em dia meu aluguel deste mes. Coisa mínima, nem iam notar...
-(...)
-Algumas coisas aqui eu não entendo. Deve de ter alguma razão, mas ainda não consegui aprender: Aqui no Mac Donald deixam a gente encher o copo de refrigerante quantas vezes a gente quiser.
-(..)
-Ai também? Eu sei, mas aqui não se paga de novo, entendeu? Só que eu nunca entendi o porquê de venderem três tamanhos de copos, pequeno, médio e grande. Eu só compro o esmol. Se é nome de refrigerante? Não mãe! É que a gente fala tanto inglês aqui que se esquece e acaba falando com os parentes daí também. Bom é que quando saímos com as amigas compramos somente um copo para economizar e revezamos, Não precisamos comprar para todas!
-Aprendi que três são as palavras que tenho que decorar aqui para poder me dar bem. A primeira e Sori que quer dizer um monte de coisas Eles usam tanto que me confundem. Usam para nos dizer que não podem nos atender. Usam quando fazem algo desagradável de propósito, usam quando estão chateados. Inglês não é dificil é só decorar a palavra chave e pronto, é que eles não são custosos que nem nós, falam tudo com poucas palavras. A segunda palavra é esquiuzemi. Funciona como uma maravilha. Com ela a gente pode fazer coisas não muito legais como arrotar, soltar pum, em público e passar na frente dos outros. Não é uma maravilha? Aliás ninguem ri quando as pessoas fazem isso, é normal! Gente civilizada! A terceira é nekst. Eu a aprendi quando fui mandar o último postal de Atlanta para tia Zezé. Eu creio que quer dizer seu tempo acabou. Todas às vezes que vou a algum lugar, sei que meu tempo acabou quando dizem nekst! Eles são organizados mesmo, posso estar no meio de uma explicação, se falam nekst acabou o tempo. As pessoas aqui tem pressa... como eles falam Taime is monei. Eu já arranjei um emprego de relpi. É uma ótima colocação, o patrão vem me buscar em casa e eu não tenho despesas com nada. Outro dia te falo o que faço porque agora tô com pressa, tenho que procurar um curso de inglês para mim, me disseram que numa igreja que fica na 41 tem um de graça. Aliás mãe, eles tem mania de numerarem as ruas, tem 41, 85, 285, e assim vai, isso às vezes me confunde... As ruas, largas, tipo aquelas que a gente via na televisão com muitas pistas eles chamam de Raiuei. Acho lindo esse nome, a senhora gostou também? Fala com a Cacilda para colocar esse nome no filho dela que vai nascer. Diga que fui eu quem sugeriu e que e um nome chic demais.
- Ih... caiu a ligação! Esse cartão num presta porque só falei duas horas, vou ter de reclamar na loja brasileira, vão ter de me devolver meu dinheiro, ah... isso é que vão!