quinta-feira, 25 de junho de 2009

O GOLPE DO PAPELIN

- Deolinda! Vou dar o golpe do papelin!

- Que é isso Marina? se espantou Deolinda que sendo do Rio de Janeiro, tinha já ouvido falar de vários golpes, mas esse era novo. Marina, sua simpática amiga goiana, morena de olhos verdes, estava radiante.

-Vou casar com um americano sua boba! Estou namorando um tempão, lembra que te falei do meu bóifriend? E agora ele quer casar! Vou ter papelin, vou tirar minha draivi!

Conhecera Marina um tempo atrás. Precisara de uma ajudante e a indicaram. Muito falante e alegre. Deolinda passou a encontrá-la sempre para comerem pamonha na loja brasileira. E foi no dia do casamento dela que Marina apresentou à Deolinda Benjamin, primo de Paul. Um sujeito loiríssimo com cabelo nos ombros, chapéu na cabeça, cinto de couro com fivela prateada, corrente no pescoço vermelho.

- Esse aí disse que é um fazendeiro. Ele tá precisando de grana. Ele se casa por dinheiro.

Deolinda se interessou. Quem sabe era sua chance, a vida trouxera tantas coisas para ela assim de repente. Esse ai poderia ser mais um repente de sua vida!

Com a intervenção de Marina e Paul toda a negociação foi feita. BJ, como o chamavam, queria a princípio 20 mil, mas acabou aceitando 10 mil em cash. Casaram, uma advogada de terceira foi contratada, tudo ia bem até o dia da entrevista quando a advogada não pode entrar para poder ajudá-la, Deolinda acabou tropeçando e caiu na desconfiança da imigração. Sorte dela que os oficiais acharam que ela não entendia nada de inglês, o que era verdade, e por isso não estava dando resposta certa. Iriam apenas conferir o seu casamento no local.

Ela localizou o BJ e se encontraram num Mac Donald qualquer. Entregou o papel da imigração. Ele leu. Mexeu-se na cadeira pra disfarçar o nervosismo:

- Tomorrow. I ( apontou para o peito) and you, ( apontou pra ela) ( Fez um gesto significando uma casa). I (Parte que Deolinda não entendeu e fez um sinal de pegar com as mãos ela e outro mostrando coisas ) . 7 pm

-Ok . Concordou Deolinda, ela era experta entendeu tudo, agora teria que mudar-se para a casa do sujeito por um tempo até as coisas se arranjarem. Seria por pouco tempo. Tinha certeza.

Um dia depois esta seguindo o “marido americano” pelas Hwy até que essas acabaram e entraram por umas estradas secundárias apertadas onde só haviam sítios. A casa ficara nos fundos de uns dois acres de terra, o capim estava alto e da rua não dava para ver bem o local. Ele desceu, abriu a porta e 5 garotos correram para encontrá-lo. “ Meus filhos” explicou cuspindo um palito de dente mastigado e pegando outro novo.

A casa era uma antiguidade, cuja garagem ostentava umas 6 cabeças de veadinhos de olhos esbugalhados, teias de aranhas por todo lado, tratorzinhos, cortador de grama. Brinquedos estavam misturados com os sacos de lixo que ainda não haviam encontrado um destino.Os meninos brancos- embaçados por foligem, todos loiríssimos de cabelos compridos, macacão jeans, pareciam terem saido de um filme americano antigo.Tentavam se arrumar para recebê-la.

Entraram pela cozinha. Fedia a gordura de porco. Tinha uma arara ou papagaio ela não soube identificar, no meio do que seria a mesa da cozinha, penugens voaram por todo lado, quando o homem ligou o ventilador de teto para disfarçar o cheiro, pois reparara na cara de Deolinda que o cheiro a incomodava.

Uns cachorros dormiam no tapete da sala. Nos sofás dois gatos velhos dormiam. Uns lençóis estavam estendidos sobre alguns sofás. Havia dejetos de passarinho pelo lençol, e pela sala. Parecia que o sujeiro soltava a ararinha de vez em quando.

Subiram. Havia 3 quartos. Dois ocupados pelos meninos, bem parece que o golpe do papelin estava se complicando. Mas com a imigraçao em cima dela, não podia nem pular fora. Tinha que aguentar. Ele sentou-se na cama alta. Tirou o outro palito de dente que mascava desde a entrada da cozinha. Cuspiu-o no chão. Pegou um novo. E disse algo que fez Deolinda estremecer:

- I am sick. I am retired.

Deolinda estremeceu. Casara com um homem doente, ele ainda por cima retardado? Não não pode ser!

- (....... parte que ela não entendeu. ) Transation amount!

- Transation amount? ? - Caramba. Esse sujeito está beirando 50 é doente, retardado e quer sexo aos monte!

- Yes transation amount!

-Chure? Transacion aos monte? ?

- Uan time ao mont .

O sujeito entendeu que o pagamento seria uma uma vez por mês, e deu uma gargalhada, quase engolindo o novo palito de dente.

- No! Here, ( apontou o chão) in USA , is every Friday.

- No! Ao mont ( ao mês) is aos monte to brasilian. Disse Deolinda, que não suportando a idéia de fazer sexo toda sexta feira com aquele sujeito. Uma vez no mês, ela poderia arranjar uma desculpa qualquer.

- Ok . Ele balançou a cabeça. Twice a month!

Ele faz uma vez no mês, mas tem que ser no gelo?

Deolinda desabou numa mala velha. O grandalhão ficou desconcertado. Ele com certeza pensava na fria que entrara com a imigração. Devia ter recebido os 20 mil para que valesse a pena. Agora ela não queria ou não podia pagar mais nada. Pelo jeito não tinha mais dinheiro. Pagar uma vez só no mês! E ele com os cinco guris para sustentar! Mesmo assim arriscou mais uma vez:

- Ok, if you do dogs, do cat and do parrot, and clean my house: One time a month!

Deolinda começou a chorar! Teria que fazer tudo isso, no gelo, fazendo cachorro e gato e ainda por cima limpar a casa de graça!!!

Seu sonho americano virara pesadelo!

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