quinta-feira, 25 de junho de 2009

AS CONFUSÕES DE DEOLINDA

Deolinda estava feliz. Quem diria que depois de um ano somente já estaria limpando suas casas sozinha? Vacilara em algumas coisas, não conseguira a carteira de motorista antes de vencer seu carimbo no passaporte. Nunca pegara num carro antes e tivera que aprender primeiro. Tinha uma Tabajara. Tudo ia dar certo. Era só dirigir com cuidado.

Estava num bronze novo. Era verão e finalmente conseguira tempo para ir a piscina do condomínio. Ria sozinha pois lembrara do que acontecera no primeiro dia que foi pegar uma cor. Escolhera seu melhor fio dental, o mais decente porque disseram que americanos são pessoas “ envergonhadas.” Deitara de costas para o sol e dormia um pouco quando acordou entre dois policiais. Um da cor fortão arrumado e um branco bombado. Sentiu-se privilegiada pois os dois a olhavam com um olhar... um olhar parecendo que... bem vocês sabem.

Sentou-se ajeitou a parte de cima do biquine.Tinha aberto as tiras das costas pois odiava aquelas linhas brancas ! Arrumou melhor o cabelo loiro desbotado, sorriu. Eles estavam sérios e compenetrados. Parecia que realizavam alguma coisa contra vontade. Não entendeu nada do que o da cor dizia, coisa difícil entendê-los ! Já quando o Bombadão , falou ela entendeu alguma coisa. Tinha alguma coisa acontecendo com seu biquini. Ele repetia, repetia e ela olhava o biquini, até que chegou um outro brazuka do condomínio e explicou o que acontecia. É que algumas senhoras americanas ,gordas invejosas , haviam chamado a policia dizendo que ela estava atentando contra a moral e a decência do lugar.

Imagina! Ela que escolhera o melhor e decente biquini! Tudo por um biquini... era seu corpinho lindo que causava inveja. Bem, foi convidada a se retirar da piscina. Tivera que comprar um biquini brasileiro normal dos anos 80 para voltar na piscina. Fazer o que?

Chegara na casa da cliente. Pegou seus apetrechos, um rodo( que comprara numa loja brasileira) um aspirador barato um balde cheio de camisas velhas transformadas em pano de limpeza. Tocou a campainha e esperou com um sorriso.

_ Good morning! A senhora simpática abrira a porta. How are you today?

_Gud mornin. Ai eme faine!

Era tudo que lembrava das respostas a saudações de seu Ingles sem barreras. Excelente curso! Estava conseguindo aprender Ingles e espanhol, ao mesmo tempo! Mas a patroa continuou a falar.

-You look good! Wonderful tan!

Deolinda estava radiante! Não é que entendera a primeira parte? Com certeza era sobre o seu bronze que falara. Era experta mesmo! Sua experteza a levara até ali, e sabia que iria ganhar muito dinheiro.

- Where you ( Deolinda perdeu o que ela falara) tan?

Perguntara com certeza onde foi para ficar tão bonita.

_ Ai gara from …. ( piscina, como é mesmo que fala piscina? Melhor falar qualquer coisa, faz de conta que fui a praia. Praia eu me lembro) bitchttt.

A patroa olhou confusa.

Será que não pronunciara correto? Achou que era get nunca saubera quando é take, get ou pick. Mandou ver:

- Ai pickerapi. from biccchh .

O olhar ficou mais confuso. Arriscou mais uma vez.

- Ai teique from bitxxxe.

A patroa calou-se sacudiu a cabeça e a deixou passar. Deolinda estava aborrecida. Suas amigas falavam que americanos não gostam de se esforçar para entender estrangeiros, era verdade. Podia agora sentir na pele.

Compenetrou-se no trabalho. Caprichou em tudo. Trocou os lençois e colocou para lavar. A patroa dera uma saidinha, queria fazer uma surpresa. Acabou de arrumar a última sala e ouviu o carro da patroa. Pegou o cheque sobre a mesa da cozinha, seus apetrechos já estavam no balde, ia saindo quando cruzou com a patroa que já entrara na cozinha. Arriscou seu ingles mais um vez.

-Ai clin your xit.

Desta vez o olhar da patroa a confundiu. Não parecia estar alegre.

- Ai djusti clin iour xit.

A patroa subiu correndo . Deolinda a seguiu. Passou na frente dela no corredor, seguiu até a lavanderia e mostrou os lençois já dobrados e secos.

Foi ai que a patroa olhou para ela e riu. Riu não gargalhou. Gargalhou não explodiu de rir! Ria tanto de Deolinda que ela foi ficando sem graça! A patroa só conseguia dizer nos intervalos, um sorry intermitente por causa das gargalhadas.

Bem que suas amigas de Goias diziam que americanos são doidos! Que graça tinha em um lençol dobrado?

Nenhum comentário:

Postar um comentário