Eram duas velhinhas irmãs, que moravam num condomínio bonito, numa casa razoável, cheia de móveis antigos e empoeirados, com mil gatos dormindo em todas as almofadas, sofás, cadeiras e mesas. Uma segurava meu cartão e tentava pronunciar meu nome, tentando para parecer simpática.
_ Palmaira?
Eu sorri. Aceitei a pronuncia errada para não desmotivá-la.
_ Naici tchu mite iu. Disse na minha versão de inglês para pessoas que aprendem depois dos quarenta. Estava sozinha. Teria que me virar com o que sabia. Clamei a Deus “ Por favor me ajude a entendê-las”
—Please - disse uma delas abrindo passagem para a sala.
Fui entrando desconfiada de tanta amabilidade.
— Sit down please! Ouvi uma dizer.
Sentar? onde? como? Em cima de uns três gatos que me olhavam preguiçosamente?
Continuei em pé e minha alergia começou. Espirrei. Poeira, pouca luz do sol, as velhinhas com um cheiro característico de pessoas que só tomam banho de toalhinhas e os gatos... Ah! Os gatos ronronando por todo lado.
Uma saiu. A outra resolveu me mostrar a casa.
_ My nine cats is my babies. I fire the last house cleaner because she kick one, just because he scratch her legs, Its normal… cats do that!
Ohei toda casa em silêncio, vi pelos de gatos em bolas, por todos os lados, rodapés, ventilador de teto, e pasmem: dentro do vaso. Espirrei!! Será que eles usam o vaso? Mas tive esta pergunta respondida ao passar pela lavanderia e dar de cara com a famosa caixa que preserva os degetos dos bichamos. Um cheiro horrível. E espirrei de novo.
_Are You sick? E me olhou como se nunca tivesse visto alguém espirrar na vida. You need change ssss. Perdi a palavra! Mas, por sorte minha, ela apontou a bendita caixa mal cheirosa!!
Sorri. O que eu preciso fazer, será que ela espera que eu troque a areia dos gatos? Daqui a pouco vai querer que de banho neles também. Espirrei! Li um artigo na internet que se chamava COMO DAR BANHO NO SEU BICHANO, era bastante instrutivo: “ Abra o vaso, coloque-o dentro, e dê discarga. Repita operação seis vezes pois gatos tem sete vidas”. Será que poderia usar esse método simples e eficiente?
Lembrei-me de minha infância em Pavuna, subúrbio pobre do Rio de Janeiro. Lembrei-me de meu pai que tinha uma gata parideira e todas às vezes que tinha gatinhos eu os colocava numa bolsa de mercado de papel e os abandonava bem longe de casa. Será que devia usar desse recurso com esses gatos?
Comecei a desejar não estar ali, que fazer? A casa parecia linda por fora, um condomínio bacana, como poderia imaginar que estivesse neste estado de podridão absoluta! E foi assim que aprendi que aqui, quem vê casa por fora, não vê o coração da casa. E que deveria fazer alguma coisa para não me arrepender depois. Calculei então, numa casa normal sem gatos eu cobraria 100 dólares. Elas me olhavam com ansiedade. Eu então disse:
_ “Uan rundrede eiti tchu taime a mont” – disse no meu inglês cheio de sotaque, aprendido em dois meses num cursinho.
Elas me olharam incrédulas com o preço e pediram para que eu sentasse.Como? Em cima de três gatos no sofá? Foram para cozinha e confabulavam, e eu não entendia nada, imagina! Se não entendia quando falavam normalmente murmúrios piorou...
Voltaram , eu não havia sentado ainda elas pediram que sentasse de novo. Tratei de enxotar dois ou três gatos com todo carinho por gatos que encontrei em minha mente.
Voltaram para a cozinha... “Ah não! ‘ tão me zoando prá que tanta falação?” um dos gatos reclamou quando os enxotei. Ai ! detesto gatos! Bichos asquerosos, vivem se esfregando nas pernas da gente... Espirei. O que será que tanto falavam. Espirrei de novo! Eu precisava de mais uma casa. E se não aceitassem ? Eu não deveria ter pedito tanto! e agora? Firme Palmira são gatos demais.
Voltaram e estavam sorrindo
_ Ok! You can start tomorrow!!
Naquele dia voltei para casa chorando.... não sei se de alegria por pegar uma casa pelo dobro do preço ou por causa dos gatos, que eu detestava, mas tinham salvado meu dia!
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