quinta-feira, 25 de junho de 2009

A SOLITÁRIA

Cheguei para limpar a casa da Madame cedo 7:30 da manhã. Casa enorme, três pisos 7 banheiros. Precisava correr porque senão o fizesse não chegaria às 3 da tarde em casa. Depois e um “How are you” e um “ I am fine” apressado, liguei as turbinas e comecei a correr. Eu sabia que assim que a Madame acordasse iria me parar para conversar, ela era doente e sozinha, coitada! E sempre tinha:algum drama para contar. Descrevia tudo de uma maneira longa e especial, sempre achei que era de propósito para me fazer ficar mais tempo. Às vezes angustiante esperar até que acabasse. Bem House Cleaner vocês sabem, tem seu papel de ouvidor-mor, confidente, aluno, psicóloga, essas coisas.
Ela chegou na cozinha lá pelas 9 e começou a falar. Eu notei que ela estava apavorada, mas do que o normal, parecia meio angustiada : “ Será que realmente aconteceu algo interessante desta vez ou é encenação de novo?” Não dei muita importância, e ela começou:
_ Você não sabe, ( mas vou saber pensei passando 409 nos gabinetes brancos) Nunca mais vou a Acapulco! ( E eu com isso pensei novamente desta vez limpando os rodapés). Eu tenho um amigo muito, muito, mas muito rico ( e daí, todos os amigos dela sempre são ricos e importante, incrível, acho que pobre mesmo, somente conhece a mim e o jardineiro mexicano) Ele foi ao México e depois de três meses começou a sentir doente. ( É hoje que não chego em casa às 3 pensava)Parecia Fraco, desanimado. Fez todos os exames e quando fizeram um ultrasson com contraste, descobriram que ele tinha uma serpente gigante achatada, morando dentro do seu intestino e que ela estava agarrada por umas coisas com sucção. Tentaram tirar várias vezes mas ela quebrava e ficava no mesmo lugar. Não tinha remédio que matasse o “bicho”. Meu amigo tem quase dois metros, ficou magro e anêmico, sem encontrar uma solução.
Eu parei o que estava fazendo. Essa história estava ficando interessante
_ Uma serpente?
_ Sim uma enorme serpente chata que se instalou como um verme, os médicos disseram que é um parasita, um que só tem no México e em país pobre.
Eu não estava acreditanto. Era uma solitária, com certeza! Fingi não saber o que era e fiz uma cara de ignorante. Eles gostam disso.
Ela contou entusiasmada, afinal, eu parara de trabalhar e ela tinha minha atenção total e isso a fazia muito feliz. Descreveu, andando e gesticulando, o verme com precisão, disse que era muito perigoso, e que os especialistas de Atlanta não sabiam o que fazer com ele. Importante detalhe, fiquei sabendo através dela, que somente dois lugares fazem exames parasitológicos confiáveis aqui nos EUA, na California e um no Norte do país, e que os médicos não conhecem bem parasitas tropicais aqui.
Depois de fazerem o pobre vagar por vários hospitais, um especialista disse que juntamente com sua equipe, tinha uma solução, mas que para isso teria que passar entre 10 a 15 dias internado. Teria que assinar permitindo que fizessem uma tentativa nova, mas única, para livrá-lo da snake-parasita. “ O que será que fizeram , pensei”.

Bem, eles o colocaram de jejum, somente com soro, depois o colocaram numa mesa de ginecologista e nesta posição, alcançaram a ponta da snake, com um instrumento inventado para essa ocasião especial, e passaram a enrolar a ponta da “cobra” e prenderam. Cada dia enrolavam um pouco. O médico com Phd explicou que era necessário, para que não quebrasse e crescesse de novo.
Nesta altura da história eu estava me controlando para não rir, imaginei aquele homem de cor, de quase dois metros, assim ela o descrevera, na posição que ela descrevera com detalhes, com “um carretel” puxando cada dia um pedaço da solitária. “Não! Isso era o primeiro mundo! Deve ser mentira dela. Mas porque inventaria algo assim. Não ria - nao ria, nao ria, nao ria” eu pensava.
A gargalhada veio como uma onda de Tsunami que se recolhe e depois volta com força total. Eu ri tanto, tanto, que ela ficou chocada. Eu choravade tanto rir. “Esse médico ganhou uma grana nestes 15 dias, e tirou uma solitária!!” pensei. Eu ria mais: “Ele numa cama de ginecologia” e ria mais. Depois de alguns minutos com a cliente me olhando, sem entender nada eu consegui parar
-Você não tem respeito pela dor dos outros? Não te ensinaram a não rir quando acontece uma tragédia com alguém?. Isso foi horrível para ele, foi com muito sacrifício que ele conseguiu se livrar dessa coisa... Vocês estrangeiros são muito estranhos...
- Desculpas! disse finalmente. Eu não ri por isso, esse verme, chama-se solitária. Ela se instala no intestino da gente e sua cabeça se fixa, o médico estava certo. Ela quebra e cresce de novo se tentar tirá-la. Mas diga a seu amigo, que pode ir para o México sossegado, e você também não precisa deixar de ir a Acapulco. Da próxima vez que tiverem este problema, e só me chamar.
- E desde quando você é médica?
-Bem no Brasil ninguém paga 60 mil dólares, como você disse, para tirar solitária. Deixam a pessoa sem comer, sentam num bacia ( falei bacia porque não sei o nome de penico em inglês) de leite e ela desce para se alimentar porque está com fome.
Desta vez foi ela que riu. Não sei se porque seu amigo pagou caro ou porque imaginou-o sentado num balde de leite.

Nenhum comentário:

Postar um comentário