A Carioca Experta. – A chegada nos States
Era alguém que pensava que sabia mais que o mundo inteiro, prá tudo tinha uma solução ou conhecia alguém que conhecia. Era Deolinda, uma morena de cabelos loiros já ressecados de tanta escova progressiva, mas conhecida como Linda – a carioca.
O que os crédulos amigos goianos não sabiam é que Linda não nascera exatamente na cidade do Rio de Janeiro, como todos pensavam, mas na cidadezinha de Papucaia, há 60 km do Rio no pé da serra de Friburgo. Um dia, por sorte, alguém arrumou um emprego de doméstica na cidade do Rio. Iria trabalhar com um rico banqueiro. Deu adeus a sua vida interiorana e se foi treinando puxar o X em todas as palavras com S para não ser “a diferente” na cidade.
Morara com os patrões num belíssimo condomínio fechado, na Barra da Tijuca e foi ali que conheceu algumas diaristas, faxineiros, porteiros do lugar e conversa vai, conversa vem, ficou sabendo que vida boa levava diaristas nos Estados Unidos. E um sonho nasceu em seu coração, tinha que ir para o tal Isteites, ali sim que era o céu.
E não e que a sorte a ajudou? Foi assim: O patrão tinha uma casa em Miami, a babá ficou doente e deixou o emprego, ela foi transferida para a função, pois era a mais antiga na família. Eles precisavam viajar, e ela foi convidada a ir junto. Tiraram passaporte, visto tudinho! E Deolinda começou a planejar seu futuro. Tinha que fugir dos patrões e ficar por lá! Lembrou-se então de um primo do primo do irmão de sua cunhada que dissera que morava em Atlanta, entrou em contato com a cunhada que acionou os canais de comunicação. O primo era empresário de limpeza na América, e a receberia com certeza.
Foi no finalzinho das férias deles, exatamente depois de um mês e meio, férias de rico é maior que a dos pobres, que ela desapareceu. Deixou um bilhetinho dizendo que sentia muito mas precisava mudar de vida e aquela era sua única chance. Como tinha visto para 6 meses, embarcou num vôo para Atlanta, e nem precisou de usar de sua experteza ali, quase todos sabiam espanhol. E desembarcou horas depois toda feliz.
Então foi que começou o teste para sua esperteza. A princípio foi seguindo o grupo que descia do avião e viu que todos pararam numa estação de metrô. Olhou as palavras, nenhuma conhecida. Viu os desenhos das malas. Resolveu seguir os desenhos das malas pois não sabia para onde o trem iria. E se fosse para o centro da cidade ? Como é que iria voltar? E o primo do primo do primo sei lá mais o que, onde estaria esperando? Assim Deolinda, expertamente seguiu os desenhos da mala por longo tempo. Reparou enquanto seguia, já cansada, que tinha uma esteira rolante, caminhou muito tempo ao lado da esteira até que decidiu pegar uma carona e “caminhada” ficou um pouco mais curta. No final da esteira viu o sinal na mala de novo e uma escada rolante só para subir.
“ É nessa que vou, mas se estiver errada como farei para descer?” pensou. “Bem o jeito vai ser descer numa velocidade maior que da escada que sobe, mas isso é facil. Sou carioca , sou Experta!”
Por sorte sua estava correto o sinal, mas a mala não conseguiu achar. Foi procurar um atendente. Tinha que se virar com seu inglês para viagem..
-“ Mai beg…”
-“Mai beg…”
Só saia isso, o atendente, por piedade ou porque queria ir embora, só deixou-a repetindo uma 10 vezes, pegou um desenho de uma mala e perguntou alguma coisa que Deolinda não sabia o que era.
-“Yes, mai beg”
Ela fazia sinais com as mãos que daria para qualquer brasileiro saber o que estava dizendo, mas o sujeito era Americano e de cor! Bem o atendente já com vontade de rir, pegou várias cores e colocou sobre a mesa e perguntou de qual cor era. E ela por um poder divino, entendeu e apontou o azul, depois o atendente mostrou os tipos de mala e assim foi...
E o primo não aparecia, por fim ela nervosa, quase chorando, apontou para um telefone e disse:
-“ Eu preciso fonear” e o atendente, muito solícito, coisa rara de se ver, emprestou-lhe o telefone e ela ligou para o primo que atendeu ainda em casa, calmamente, dizendo que estava esperando realmente que ligasse.
Bem estava na América e a carioca experta saiu feliz. Não era uma malinha que demorou quase uma semana para rever que iria abatê-la. Agora era só arrumar umas faxinas e pronto!!! Tudo estaria resolvido.
Ela descobriu, no entanto que nada era fácil aqui. Que a empresa do primo só comportava ele a mulher e uma ajudante, e o máximo que o primo faria, era colocá-la no lugar da ajudante e que ganharia 15 dólares por casa, grande ou pequena, e que teria que fazer os banheiros da casa e a cozinha.
Cedo muito cedo, Linda aprendeu que havia gente mais esperta que ela e que estava sendo explorada. Limpava os piores lugares da casa, o primo ficava conversando com as clientes enquanto ela trabalhava. Na primeira semana o primo que achava que ela já sabia tudo, mandou-a buscar uma Trash bag. Explicou onde estava e ela subiu para procurar. Não encontrou pois ainda não havia sido apresentada a dita cuja em seu estado original, ainda na caixa. No caminhou passou por um quarto cujas gavetas as roupas estavam saindo para fora, sapatos estavam para todo lado e ela pacientemente colocou-os no lugar, e começou a arrumou as gavetas. Esqueceu-se do saco de lixo.
O Primo subiu como louco atrás dela logo assim que percebeu que não voltara. Xingou muito, perguntou porque “fuçava” as gavetas, de sua cliente, disse que roubara coisas. E Deolinda teve que tirar a roupa para provar que nada disso tinha acontecido. O primo não satisfeito, afirmou que não era suficiente pois tinha gente que escondia coisas no corpo, e Deolinda desesperada tirou tudo! O pior aconteceu quando a mulher do primo apareceu e pensou que era sacanagem dos dois! Quase que ficou sem teto! Precisou implorar muito para não ir para a rua.
Numa outra ocasião o primo mandou limpar a lareira retirar as cinzas antigas. Ela caprichou na limpeza e retirou inclusive uma caixinha cheia de cinzas que haviam guardado lá. O primo quase morreu!
“ Sua ignorante! Você jogou as cinzas da avó deles fora!”
Deolinda teve que se virar e limpar as cinzas do lixo, para recolocar no lugar. Peneirou o lixo e a caixinha ficou cheia de cinzas de lareira com as da avó! Afinal cinza é cinza! Que sufoco meu Deus!
Entrou num cursinho de igreja. Comprou um Inglês sem barreiras e depois de muito sofrer , resolveu tirar uma Tabajara e fazer seu isquedio. E no dia que se libertou do primo, resolveu comemorar com um amigo num restaurante Americano. No Ryan’s mais precisamente. Com sua câmera digital rosa nova, resolveu tirar umas fotos para colocar no Orkut. Estava tão feliz que pediu um Americano que tirasse as fotos. Ao entregar a máquina falou:
-“Plisss fok in mi.” Falou bem alto orgulhosa de seu inglês. O Americano segurou a máquina sem entender. “Fok in mi Fok in mi!” repetia desvairada!
O restaurante veio abaixo . Todos riam, e ela pensou que era por estar tirando fotos sobre a mesa. E repetiu sem se importar - “Fok in mi. “
Foi então que o amigo a puxou de lado e disse o que estava falando. Deolinda se sentiu arrasada, voltou para casa pensando que era muito difícil ser experta neste país!
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