quinta-feira, 28 de janeiro de 2010

O NOVO ANO DE DEOLINDA

Deolinda resolvera ganhar dinheiro. Quase dois anos de America e não conseguira juntar nada. O “marido” não aceitava mais ser “pago”, queria ser marido de verdade, e enquanto ela pensava no assunto resolveu entrar num consórcio. Seu raciocínio era lógico: Se conseguira pagar quinhentos dolares para o marido todo mês, de certo conseguiria pagar o consorcio. Tinha um excelente “esquedio” e isso não seria problema. Quase todo dia encarava 5 casas. Andava cansada, dependia de ajudantes, a vida não tava nada fácil.
Recebera uma carta diretamente de Papaucaia, Rio de janeiro, sua mãe pedia ajuda para casar sua irmã menor. Afinal ela era rica, casara com americano, tinha uma empresa. Às vezes sentia raiva de si mesma, por ter mentido para todos no Brasil
Lurdinha já estava pronta. Entrou falante no carro, segurando a bolsa e um pequeno livro preto que acabava de colocar na bolsa, falava e falava. Comentava sobre o tempo, sobre a vida, sobre igreja, sobre familia. Deolinda não respondia. Olha para ela pensando como é que iria limpar uma casa com a figura a seu lado de saia comprida, cabelo comprido solto , camisa de manga comprida, lingua comprida, avisou que teria que prender o cabelo. E calou-se. “Essa aí eu não sei se é uma relpi crente ou se é crente que é relpi, e riu do trocadilho que fizera.
O dia transcorreu sem surpresas, Lurdinha, tinha solução prática para tudo. Terminaram um pouco mais tarde que o normal e no caminho de volta Deolinda resolver conversar. Contou sobre seu consorcio que só sairia em 3 meses, e o casamento da irmã que seria em dois meses, e ela pedira um vestido”americano” de casamento, teria que mandar logo e ela não sabia o que fazer.
- Vai no Goodwill e compre! Lave, passe e mande. Se não souber fixar as miçangas eu fixo pra você, falou tranquilamente a outra. Compre tudo que puder em roupas, e presentes para todos, coloque numa caixa e mande para o Brasil. Limpe tudo, coloque etiqueta de novo, até a etiqueta que vem da lavanderia serve para eles pensarem que e novo, riu Lurdinha. Tem um irmão da minha igreja que tem uma transportadora e você pode mandar sua caixa por ele. Gente de confiança!
- ‘ Ce é uma crente muito 71! Respondeu Deolinda, mas gostei da idéia!
Naquelas próximas semanas Deolinda andou por muitos Goodwill com Lurdinha que a ajudou a escolher as roupas dos padrinhos, da mãe, do pai, dos irmãos tudo com etiqueta “de novo” da lavanderia. Domingo o “irmão” da igreja de Deolinda passou em sua casa e levou a caixa. 180 dolares e ela estava feliz. Telefonou para a mãe. Avisou que não só mandara presente para a irmã, mandara roupa de casamento prá todo mundo! Avisou que o cheiro quando abrisse poderia não ser agradavel, mas era por causa da maresia, longo tempo no fundo de um porão de navio até o Brasil.
Duas semanas antes do casamento Deolinda recebeu um telefonema desesperado. Era a mãe com toda família reunida ao mesmo tempo falando ao telefone. Já que Deolinda mandara roupa para todos , eles haviam gastado todo o dinheiro que tinham preparando a festa, pagando igreja tudo mais. Exageraram um pouquinho, erraram nas quantidades, e gastaram um pouquinho além, o que não seria nada para ela, Deolinda, a americana pagar, Mas até agora ninguém tinha roupa de casamento e a caixa ainda não chegara. Estavam faltando exatos 9 dias para o casamento!
Deolinda enlouqueceu. Prometeu que resolveria. Foi correndo falar com Lurdinha.
Lurdinha parecia que conhecia a história pois não se abalou, disse que o irmão fora usado por “um demônio” e que roubara o dinheiro da empresa e fugira, e que infelizmente a caixa não chegaria. Mas que não era culpa dela. Muitos haviam sido lesados.
-E agora Lourdinha?Terei que mandar dinheiro! Minha família nunca me perdoará por essa confusão. Eu ainda não tenho o dinheiro do consórcio, ainda irei receber, daqui há algumas semanas e o casamento é em duas semanas.
- Pague no cartão de crédito? Disse a outra tranquilamente.
-Tá doida! Eu não tenho como pagar um valor desses!
-Não to não! É só pagar no cartão, receber o consorcio e pagar o cartão só isto!
Deolinda parou um pouco. É parece que a “crente que era relpi” sabia das coisas ou ela é que não estava mais raciocinando devido a tantos problemas.
Foi ao banco e sacou no cartão o dinheiro, passou na loja de remessa e mandou para a mãe. Estava triste pois era toda sua economia, mas pagaria no mes seguinte e faria outro consórcio.
No dia de receber seu dinheiro no consorcio telefonou para a mulher responsável. O telefone estava desligado. Correu para a casa dela, estava trancada. Procurou uma amiga que morava no mesmo condomínio, que a apresentara a tal mulher e a amiga contou lhe que ela estava foragida. É que a mulher morava com um mexicano que era coiote, a policia veio e o prendeu, como a avisaram ela conseguira fugir mas ninguém sabia onde estava, e certamente Deolinda e o ultimo beneficiário do consórcio iriam ficar sem o dinheiro.
Deolinda ficou sem chão! A amiga deu-lhe uma água com açúcar, mandou que se acalmasse. Acalmar como? Estava devendo o cartão de crédito e não sabia como pagar!
Voltou para casa, era tarde, de longe viu a casa toda acesa. Que teria acontecido?
Entrou. Dois agentes federais estavam a sua espera. Eles tinham um cheque de Deolinda nas mãos. O último cheque do consórcio! Queriam saber qual o envolvimento dela com o tráfico de ilegais. Porque pagara ao coiote e quem havia trazido. Como não soube explicar a algemaram e a levaram para depor. Começara muito bem o seu novo ano.

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