A mãe de Deolinda chegava naquela manhã chuvosa de Junho. Tinha vindo ficar com a filha “americana” uns dias. Era uma velhinha forte, alegre e falante. Aliás falava alto, não se sabe se pela surdez ou pela cultura do lugar onde vivera toda sua vida.
Tremenda fora a dificuldade das aeromoças com aquela senhora decidida. Deolinda havia encomendado uma cadeira de roda para que pudesse vir em segurança, mas sua mãe não aceitara de jeito nenhum esse tipo de ajuda: “Eu não sou doente! Eu posso andar muito bem.” Agora desvencilhada de todo o staff do avião, segurava o papel que lhe deram para buscar a bagagem, tinha uma letra N. Tinha que pegar o trem, Deolinda dissera isto, e não era difícil, já que viajara muitas vezes de trem para Japeri, quando visitava suas irmãs. “Siga a direção das malas” a aeromoça que falava portugues explicou depois de ajudá-la a passar pela imigração. Entrou no trem muito feliz. Reparou que as estações eram por letras, olhou o papel com a letra N e esperou chegar a de letra N. (TERMINAL NORTE) Só depois de dar 4 voltas é que descobriu que o N não existia. E agora, o que fazer? Bem o jeito era descer em qualquer estação e perguntar. Perguntar como ?
Desceu numa estação onde viu parado um policial. Ela tentou gesticulava e falava em portugues e depois de muito custo, conseguiu que o guarda pegasse o papelzinho em suas mãos e ligasse para a filha, que a esperava apavorada.
No aeroporto foi abraçando o genro, beijando as crianças, falando sem parar sem se importar com o fato deles não entenderem patavinas do que falava. Em casa foi entrando, perguntando onde iria ficar, colocando suas malas no quarto da menorzinha, que a olhava espantada sem saber o que dizer para aquela velhinha sorridente.
Na manhã seguinte, acordou as cinco como fazia no sítio onde morava, e foi logo se dirigindo para cozinha. Procurou o fogão, e não encontrou. Ficou preocupada, como faria o café para seus netos loirinhos? Já os considerava assim. Fez tanto barulho que Deolinda levantou. Logo atrás dela estava o marido, mascando palito tentando arrumar o cabelo que agora já passava dos ombros.
-Deolinda, você cozinha?
-Claro mãe! E mostrou o bonito fogão eletrico que comprara poucos dias antes da mãe chegar.
-Isso parece uma táboa de cortar legumes, fogão com fogo Deolinda. É desses que quero.
A partir daí foi um desastre. A mãe que tentava usar o fogão e queimava-se sempre. Deolinda apresendou as comidas em latas, congeladas, explicou das facilidades que existia aqui, mas a mãe não conseguia entender nem usar as modernidades. Assim transformou a churrasqueira num fogão, e saiu queimando panelas de Deolinda todos os dias.
Durante todo o mês a velhinha só deu trabalho. Tentando aprender a usar o microondas, colocou ovos para cozinhar e eles explodiram, colocou pipocas além do tempo e elas queimaram totalmente, deixando o microondas amarelado. Mas o pior foi a cisma que pegou do marido de Deolinda.
Todos os dias ela fazia a mesma pergunta para Deolinda, queria saber o motivo do cabelo grande do genro. Se não era promessa insistia que cortasse. Tanto falou que o genro passou a entender o que falava. Insistia também para que ele trabalhasse, como ele era aposentado, todos os dias insistia que ele fosse com Deolinda encarar o batente, afinal estava em casa e ficaria com os netos. Tanto fez que o genro entendeu a vontade dela e acabou indo trabalhar mesmo, se não tinha boa vontade pelo menos pelo menos necessidade de ficar longe dela pelo menos umas horas.
Mas o pior ainda estava para vir. A mãe de Deolinda começou a aprender algumas palavras e ingles, coisas simples tipo mãe, pai, avó, minha meu homem mulher. Ela começou a decorar palavras e estava toda orgulhosa de si mesmo num domingo quando foram passear num mall. Estava muito cheio e ela estava feliz brincando com as crianças e vendo as lojas. Não percebeu quando numa loja de roupa perdeu-se do grupo. E agora o que fazer? Entrava de loja em loja e nada. As lojas estavam fechando quando pelo vidro enxergou o genro de cabelos compridos que abominava que sobressaia no meio das roupas masculinas. Tentou entrar, foi barrada. Tinha que dizer o que se passava, precisava falar alguma coisa.
- Mai Men MAI MEN PLISS MAI MEN!
O guarda da porta não entendeu. Fechou a cara. Ela insistiu, bateu no peito e continuou insistindo com o my man. Um grupo de funcionários olhava para ela agora balançando a cabeça. Foi quando o genro a viu desesperada do lado de fora. Foi em direção da porta, explicou o que acontecia meio sem graça. Os empregados não acreditaram pois quando saiu pela porta a sogra o abraçou e beijou efusivamente, de tão alegre que sentia.
Nenhum comentário:
Postar um comentário