Num lugar distante nas terras do Brasil, mas especificadamente em Papucaia, na subida da serra de Friburgo, interior do Rio de Janeiro, num sítio pequeno, uma senhora de cabelos brancos se levanta às cinco da manhã para cumprir sua rotina diária. Rotina simples, cuidar da casa, do marido, das galinhas, patos e porcos, da horta. Mais tarde quando o sol já está quente, uma das filhas passa pela casa deixando os filhos para que ela tome conta. Ela é doméstica, em Itaboraí, ganha o salário mínimo, Não teve sorte a coitadinha. Deolinda sim, teve coragem de ir mais longe, Sua Lindinha era uma faxineira bem sucedida na América!
Gosta de conversar com os vizinhos quando vai a cidadezinha próxima, o tema central é sempre sua filha mais velha, Deolinda, a que casou com americano, que tem cinco filhos, que tem uma empresa de faxina de primeira, que está rica, muito rica. A maioria das amigas morrem de inveja das coisas que Deolinda manda pelo correio: uma panelinha de fazer arroz, que nunca usou porque ninguém conseguiu entender as instruções, umas espátulas de silicone, uma lanterna que não precisa de pilha, só sacudir durante um tempo para que funcione. Mas o que mais gostou mesmo foi do abridor de lata vermelho, muito melhor do que o que possuía anteriormente. Deolinda também enviou uma cebola, tomate, limão e metade de uma banana de plástico, dizendo que era para guardar o restinho dessas coisas na geladeira. Imagina! Guardar metade de uma banana de um tomatecom tantas bananas e tomates no quintal, que coisa mais ridícula! Esses americanos devem passar muita necessidade pois comem somente a metade de uma banana de cada vez! Deve ser por causa da neve, banana não gosta de frio, pensa sorrindo.
Deolinda reclamara que não comia uma manga gostosa fazia anos, assim sua mãe foi ao correio com uma caixa para enviar, não permitiram é claro. Falaram de algumas regras que impediam de enviar sementes para outro país. Coitadinha da filha, iria ter que esperar até vir ao Brasil.
Para as vizinhas, gostava de mostrar suas roupas, lindas, com muito brilho e miçangas, Deolinda devia ter gastado uma fortuna comprando tudo aquilo. Tudo vinha de uma botique chamada “Trift Store”.
Deolinda escrevia muitas cartas, mandava cartões, mandava fotos da familia. Um dos últimos que escrevera era o ela mais gostava de ler era o que dizia: “ Mãe: estou aprendendo muita coisa por aqui, mas o que mais aprendi é que você deve ter tido muito trabalho com seus 7 filhos. Tenho cinco e tem sido muito difícil! Quando um quer algo o outro não quer, às vezes todos falam ao mesmo tempo, fico muito confusa com muita coisa ainda. Mas fico emocionada quando me chamam de mãe. A menorzinha me abraça apertado, aprendeu isso comigo, americano não tem muito desse negócio de beijos e abraços. Ela me diz, mon please tell me a history. Ai eu conto as histórias que você me contava. Ela me beija e dorme feliz.Vai se preparando mãe, quero que venha passar um tempo comigo aqui.”
Lia e relia a carta mas sempre pensava como iria conseguir fazer a viagem sozinha. Bem sua filha com certeza iria providenciar tudo. Todas as cartas já estavam ficando desbotadas de tanto ler e exibi-las, estavam guardadas numa caixinha e nas tardes sentada na varanda, olhando o horizonte gostava de pegar uma por uma, beijar uma por uma, assim a saudade que sentia de Deolinda passava um pouco, sim sentia muita falta desta filha tão boa e dedicada, olhava as fotos, beijava as fotos falava com as fotos e se sentia melhor. Sentia como se um pedacinho da filha estivesse ali, em cada rabisco, sentia seu cheiro nas folhas escritas, muitas vezes acabava adormecendo abraçada na caixinha.
....................................................................................................................................................................... Estamos no mês das mães, escreva para sua. Sim escreva. Eu sei que estamos na era dos email, das fotos digitalizadas, dos telefonemas apressados. Mas escreva numa folha de papel a moda antiga, compre um lindo cartão e escreva. As cartas significam muito para as pessoas de idade, fotos significam mais ainda. As mães podem sentir os filhos através delas. Conte qualquer coisas, fale qualquer coisa, e depois não se esqueça de dizer que a ama, dê a sua mãe esperança de lhe ver novamente, dê a sua mãe motivos para se orgulhar por ter um filho tão longe de sua terra natal.
Feliz dia das mães!
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