domingo, 25 de julho de 2010

VISITANDO A SOGRA

A casa estava agitada. Deolinda acordara mais cedo, as crianças estavam excitadas corriam de um lado para o outro. É que naquele sábado iriam para a casa da avó. Ela estava completando 50 anos de casada e todos os filhos e netos estavam sendo esperados para o almoço. Era apenas um par de horas de viagem, até o sítio da vovó, que havia mudado recentemente.

Deolinda não a conhecia. Quando morava perto ela nunca fora até sua casa, nem Deolinda na dela, não sabia o que o marido dissera a seu respeito. Ele no entanto durante o ano que passara, ao ser interrogado pela família sobre quem era a mulher que morava em sua casa a qual as crianças estavam chamando de mãe, ele desconversava. Agora finalmente anunciara que ela era sua esposa, e com certeza a família, que não havia ouvido falar do acontecido casamento, e que pensavam que apenas moravam juntos, estavam no mínimo curiosos em saber quem era ela.

Deolinda escolheu a melhor roupa, mirou-se no espelho. Estava um pouco desbotada de sua cor original porque era inverno. Maquiou-se. O marido chegou à porta e ficou admirando. Depois desceu, fiscalizou as crianças uma a uma, havia comprado roupas “decentes” para todos, a menina há muito tempo vestia-se de “menina”, abandonara há muito o macacãozinho original com que aconhecera.

Todos entraram no carro, Deolinda trocara de carro, agora tinha uma bonita van familiar com DVD e tudo mais. Nunca gostava do truck velho do marido. E foram. Felizes como uma família deve ser os meninos comendo e vendo TV. Deolinda não falava muito. Estava super apreensiva. Será que os sogros gostariam dela?

Uma casa grande com varanda onde já estavam sentados alguns dos irmãos do marido. Todos vieram correndo em direção do carro, com certeza curiosos quanto a nova cunhada. Deolinda desceu. Calças jeans bem justa, escolhera porque sabia que eles gostaram de jeans, blusa vermelha colante, botas altíssimas, afinal o marido gostava de botas, cabelos esvoaçantes quase brancos forçadamente lisos, óculos escuros,que completava o visual.

A atenção foi geral os homens admirando e as mulheres murmurando. O marido orgulhoso entrou com ela para apresenta-la aos pais. Tomar um banho de gelo pela manhã seria melhor para Deolinda. O olhar gélido da sogra a fez tremer. Não falou muito, estava quase na hora do almoço, mas não precisava dizer nada. Estava vendo fotos na sala. A sogra puxou uma conversa para parecer simpática, mostrando a Deolinda uma foto. Deolinda entendeu a provocação. Era uma bela mulher ao lado do marido mais novo. A sogra disse-lhe que era a falecida e que ela era muito bonita. Esse era o tipo de mulher que o seu filho costumava gostar antes. “She was beautiful” comentou sem deixar transparecer a raiva que sentia. A sogra parecia feliz.

Uma a uma as criaças de Deolinda foram se aproximando. A sogra deu um olhar de desaprovação a cada uma, limpos demais, organizados demais, polidos demais. “Que aconteceu com essas crianças?” perguntou a avó ao filho mas com os olhos em Deolinda. “Parecem que foram para o exército. Que estão fazendo aos meus netos ?” A pergunta foi para o pai mas os olhos ainda estavam fixos me Deolinda. “ Mãe eles estão felizes com a nova mãe, comem melhor, estudam todos os dias, ela é uma boa mãe.” Foi a resposta do marido. O silêncio era como de velório.

A menorzinha chegou perto de Deolinda para pedir permissão para brincar lá fora, Ouviram Deolinda dizer que teria que trocar de roupa para não estragar a nova, e que todos deveriam fazer o mesmo. Deolinda aproveitou e foi ao carro buscar as roupas para as crianças trocarem. Ela sabia que fora desaprovada, estava nervosa, o marido tenso, eles não sabiam o que fazer.

As crianças se trocaram e correram para a rua, Deolinda aproveitou e foi pegar o presente que trouxera para a sogra. Estava numa bolsa bonita, uma panela de pressão eletrica, custara quase 100 dolares. Entregou com um sorriso, a sogra olhou por cima, viu o que era, colocou de lado e disse “ Não gosto de modernidades”. “A que se referiria ela? A ela, Deolinda, ou a panela?” pensou Deolinda.

Deolinda olhou aos outros quatro irmãos do marido. Dois homens parecidos com o que o marido havia sido há um ano atrás. Alguns moravam em sítio também. Os dois mascando palitos, hábito familiar com certeza, Deolinda olhou novamente as cunhadas. Gordas, acabadas, toda com um monte de filhos, Ninguém preocupado com a aparência. Todos os filhos encardidos correndo de um lado para o outro, só então notou que “suas crianças” estavam mais educadas mesmo porque não faziam tanta bagunça.

Chegou a hora do almoço, todos vieram a mesa, a sogra havia armado uma mesa com quase 20 lugares na varanda em frente ao backyard, uma lareira esquentava o local. Todos sentados o marido puxou a conversa. Deolinda pediu que colocasse arroz para ela com salada, pediu em português, estava tão nervosa que nem se lembrou deste detalhe, o marido atendeu e disse em português “ Você estar bem. No preocupar. Você estar bonita.” “ Mon bonita” repetiu a menorzinha.

A sogra explodiu. O que estariam dizendo em código secreto? Não ela não admitiria qualquer conversasão estranha a mesa. Foi logo dizendo que não queria ouvir espanol em minha casa, que não falassem outra língua e que não ensinasse outra língua para os netos. E que se tivessem mais filhos, nunca ousasse ensiná-los outra língua!

Deolinda levantou-se, o sangue subiu a cabeça.

-“ I am not spanish . I am Brazilian. Is Chic. is Chic falar another lingua.” O nervosismo a fizera tropeçar.

- “ Chicken? I am chicken? YOU CALL ME CHICKEN?”

A confusão foi estabelecida, a filha do outro lado da mesa xingou Deolinda de algo que ela não entendeu. A velha chorava, o outro filho fez um sinal que queria agredir Deolinda.Ninguém se entendia mais. Todos falavam juntos os irmãos irmãs cunhadas todos reprovando o que Deolinda falara. Menos o marido é claro que não falava nada mas não entendera nada do que acontecera.

-“ Do something!” a sogra exigiu do filho atitude. O marido estava procurando uma saída. “ Quero ir embora agora disse Deolinda ao seu ouvido” . Ele entendeu, estava bom entendedor, principalmente quando Deolinda estava nervosa.

-“ Crianças vamos embora!” E os meninos entenderam a voz, a ordem dada em português também, todos se levantaram, e correram para o carro.

Sob os comentários “ essa mulher é um general”, “ como ousa xingar nossa mãe”, Deolinda se levantou sem despedir-se pegou suas coisas e ligou o carro. Iria dirigir para ter certeza que iriam embora. O marido demorava-se mais um pouco tentando explicar o que não entendera. Ela buzinou. “ Você vem ou não vem?” E é claro que entre ficar com a mãe e irmãos e seguir a paixão de sua vida ele escolheu a segunda opção.

Haviam rodado mais de uma hora quando ele se arriscou a dizer que eles não haviam sido simpáticos com ela, mas não havia entendido porque chamara sua mãe de chicken.

-Chic falou Deolinda, not chiquen. Chic é in Franch. Quero dizer is chic speack another language. Chic é bonito, elegante, fino….

Ele se calou. “Galinha em português é uma mulher elegante e fina. E fina é magra pensava, mas não entendera bem, porque sua mãe , que estava acima do peso, nem era elegante. OK melhor não perguntar mais não queria chatear esta mulher complicada com quem queria passar o resto de sua vida.

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