Não! A mãe de Deolinda não sabia o que fazer com tantas informações, opiniões, rezas e até simpatias. Tudo começara no dia que decidira tentar um visto para ver a filha na América! Nunca pensara que fosse tanta confusão. A Tia de Marina, aquela que tinha um bom emprego Federal, resolvera ir junto para ver como o filho estava se virando, Deolina fizera as conecções pois sabia que a mãe tinha pavor de pensar em viajar sozinha, assim as duas viriam juntas.
Enquanto viajava num ônibus parador para Niterói, ela raciocinava: “ Um me diz que eu não posso mentir porque eles tem como saber que eu estou mentindo, mas a Tia de Marina me disse quer não posso dizer que tenho filha na América pois senão, vão pensar que vou morar lá, e foi ela quem preencheu os papeis no computador e enviou para mim. O meu sobrinho que já mora lá há um tempão me disse que não tem problema eles saberem de Deolinda, eu tenho que dizer que meu sítio é uma fazenda com gado, cabritos e uma granja e que vale muito dinheiro. Ele disse que não posso dizer que Deolinda é faxineira, tenho que dizer que é empresária, que tem empregados, que só manda, não faz nada, gerencia, essa é a palavra que estava esquecendo, gerencia tudo.... Ai meu Deus! O que vou dizer?”
Chegou lá pelas 9 da manhã, a filha mais nova estava com ela, e conseguiu fazer tudo direito, pagou as taxas pegaram a senha e ficaram esperando, quando mais esperava, mais opiniões ouvia. Por fim chegou sua vez. Estava com tudo num envelope separado. A escritura da “fazenda” que o primo da cunhada da filha do meio, que tinha um irmão que trabalhava no cartório, pedira para fazer uma pequena alteração na quantidade dos acres, tinha decorado tudinho. O extrato bancário tinha uma pequena fortuna que todo mundo ajudou a crescer emprestando um pouquinho. Quando a chamaram ela gelou.
O Consul fez cara de pouco caso. Bem que Deolinda avisara que eles iriam fazer isso. Sentiu-se humilhada. Havia feito as unhas das mãos com recomendara Deolinda, o Consul ficara olhando suas mãos quando entregara o papel, não podia disfarçar a artrite que já estava adiantada nem tão pouco podia melhorar as unhas que estavam grossas com fungos. O consul levantou os olhos e perguntou:
- A senhora tem parentes que moram lá?
Ela gelou. Não conseguia lembrar de nada do que haviam instruído.
- A SENHORA TEM ALGUM PARENTE LÁ? Falou impaciente o consul.
- Sim eu tenho minha filha.
-Mas o seu papel diz que a senhora não tem nenhum parente seu morando lá!
- Meu senhor, papel é papel e pode estar errado, eu não posso errar porque eu sei o que estou falando e minha filha mora lá , tá casada com um americano igual ao senhor, fala inglês, e é empresária da faxina.
- O consul se assustou com a resposta tão pronta e tão clara. Quer dizer então que a sua filha é legal?
- Ela é super legal! Uma pessoa muito bacana mesmo. Acho que foi por isso que casou tão cedo com um americano. Muito simpática e muito trabalhadeira.
- Se a sua filha é legal porque é faxineira? Americanos podem arrumar outro emprego melhor.
- Meu senhor, se ela escolheu ser faxineira é porque deve de dar muito dinheiro. Minha filha é esperta e não escolheria uma profissão só para posar de bacana. Ela tá rica, muito rica, o Senhor vai ou não vai me dar esse visto? Já disse tudo que sei, tenho que voltar para meu sítio e trabalhar, saí muito cedo hoje.
- Mas aqui consta que a senhora tem uma fazenda.
-Fazenda? Tô vendo que esse povo que faz coisa no computador só faz coisa errada, eu tenho um sítio senhor. S I T I O entendeu? Para chegar a fazenda falta muito, o pessoal da cidade, quando vai por lá pensa mesmo que é fazenda, mas não é não senhor, é apenas um sitio. Decide logo porque eu não tenho tempo a perder.
O consul ficou em silêncio por um momento. Na sua mão tinha uma ficha dizendo que essa senhora não tinha parentes nos Estados Unidos, e que era fazendeira com muito dinheiro no banco, mas a senhora a sua frente falara tão francamente que ele entendera tudo. Quem preenchera a ficha ocultara muita coisa, mas aquela senhora era honesta demais para mentir.
-Quanto tempo a senhora pretende ficar por lá?
- Só uns meses. Uns três, minha filha disse que lá no inverno é muito frio e eu não suporto frio.
- O seu passaporte será enviado pelo correio com o seu visto. Parabéns!
- Obrigado Senhor, mãs hoje não é meu aniversário.
O consul riu e balançou a cabeça.
A tia de Marina foi também ao consulado de Brasilia. Muito bem arrumada, disse que não tinha parentes e que não conhecia ninguém. O Consul somente disse.
- A senhora está com algum problema de memória, pois aqui consta que seu filho mora em Atlanta e tem conta no Bank Of América. A senhora não acha que está muito idosa para mentir?
Bem, Alguns sempre me dizem que cabeça de consul é como bumbum de nenem, nunca se sabe o que vem, mas eu digo, o melhor caminho sempre será a verdade.
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